Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

Imunização racional

Edi Rock, parceiro de Mano Brown, prepara um estonteante voo solo

CARLOS EDUARDO OLIVEIRA , ESPECIAL PARA O 'ESTADO',

28 Julho 2012 | 03h11

"Parece que na TV a batida fica mais lenta do que a gravação original", comenta Edi Rock, entre goles de energético, sobre o clipe de That's My Way, que naquele instante é exibido na tela de plasma do estúdio - cinco minutos antes a MTV exibira Marighella, dos Racionais MCs. É quase irônico que os dois estejam ao mesmo tempo abertos à votação do público para a categoria Melhor Clipe do Ano, no Video Music Brasil 2012. Seja como for, é difícil resistir ao groove da faixa em parceria com Seu Jorge, cujo clipe foi gravado na comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro. Assim como é impossível dissociar Edi Rock (na carteira identidade, Edivaldo Pereira Alves, paulistano) de seu grupo, maior expoente do rap nacional. Após mais de duas décadas de trabalho conjunto, um dos Racionais finalmente abre caminho solo, seguido bem de perto pelos demais. "Os Racionais não vão acabar", garante o MC. Sob a batuta do DJ Cuca, Contra Nós Ninguém Será é uma reunião de inúmeros 'trutas' que traz de reggae a rock escandinavo, passando por MPB, samba, blues, latin soul, afrobeat, funk, som de pista e, claro, rap pesado. "Sempre quis fazer algo diferente de tudo que já fiz com os Racionais. Chegou a hora."

Por que justo a faixa de trabalho do seu primeiro CD tem título em inglês, algo que os Racionais nunca arriscaram?

Surgiu espontaneamente. Um dia eu e o Seu Jorge estávamos fazendo um free-style, criando a música, quando ele emendou umas frases em inglês, cantarolando bem no estilo 'embromation'. Lá pelas tantas, falou, 'that's my way'. Gostei na hora: taí, That's my Way.

Marighella, dos Racionais, tem um clima soturno e pesado, inclusive com muitas armas. Qual é a metáfora?

É ideia do Brown, que escreveu a música e fez o clipe com a equipe dele. É um comparativo de uma revolução, que não está distante da realidade que acontece ainda hoje. Estamos todos sempre no limite, com a mão na arma.

Que material é esse de Contra Nós Ninguém Será? Coisas que não couberam nos Racionais?

É uma soma de tudo. Coisas antigas, que escrevi e nunca usei, coisas que eram para ser gravadas pelos Racionais. Mas, como o disco (dos Racionais) ficou para o ano que vem, senti que o bolo passaria do ponto e preferi usar agora. Também escrevi muito de um ano pra cá, quando recebi o convite para vir para a gravadora.

A impressão é de que, mesmo nos Racionais, você sempre foi musicalmente mais aberto.

Sempre quis fazer um disco diferente dos Racionais, com bastante participação, diferentes estilos. Mas, além de ter que focar muito no grupo, nunca tinha tido tempo e estrutura. Até ameacei com um EP, para medir a temperatura, mas ele ainda era bem centrado no rap. A oportunidade veio agora.

Que riscos são esses?

O rock, por exemplo. A música brasileira te dá essa versatilidade. Eu ouço de tudo, até forró e sertanejo, para saber o que está rolando. Mas do que eu gosto mesmo está no disco. E quero mais. Por exemplo, por que não juntar um riff de guitarra com vocal de rap? Ainda pretendo fazer uma parceria com o Derrick (Green, vocalista da banda Sepultura). Ele é gente boa, temos amigos comuns. Também tenho o sonho de um dia gravar com a Sandra de Sá.

Como lida com o fato de assinar grandes músicas, mas ver todas as atenções aos Racionais voltadas para o Mano Brown?

Desde o começo, o grupo escolheu o Brown para ser o porta-voz, pelo fato de ele ser muito eloquente. Foi uma escolha nossa, e sempre deixamos isso bem claro. Não há espaço para rivalidades, convivemos muito bem com isso. Somos uma união de forças. Até porque o Brown nunca vai conseguir escrever e fazer música como eu faço, nem eu como ele. Nossos estilos são diferentes. Eu não dou tiro. Tento abraçar. Só dou tiro se não recebem meu abraço. E isso dá pra perceber nas letras.

O que pensa desse novo cenário do rap, onde despontam caras como Emicida e Criolo?

É o caminho. Se você não experimentar coisas novas, diferentes, vai continuar o mesmo e viver do passado. E aí que diferença o rap vai fazer na música? Nenhuma. Vai ficar velho, ultrapassado, as pessoas não vão dar mais ouvidos, tipo 'de novo, esse cara com essa mesma ideia?'. A nova geração sacou isso porque cresceu ouvindo a gente.

O discurso tem que mudar?

Não sei se tem que mudar. Eu não mudei o meu. Pelo contrário, não só o mantive, mas estou indo além. Aprendi isso, e acho que os Racionais também o fazem muito bem. Minhas músicas sempre vão ter mensagem. Não necessariamente social, mas positiva. No meu caso, atualmente a revolução se dá através da música. Eu me revolucionei fisicamente, mentalmente e musicalmente.

Como gosta de compor? Prefere escrever na hora, ou traz a letra pronta para o estúdio?

Prefiro escrever em casa, sozinho, e trazer a letra pronta. Na hora, faço umas adaptações mínimas. E não gosto de temas. Já o Brown adora. Gosta de escrever a partir de um tema, pega uma ideia e sai escrevendo, até dissecar. Eu não. Gosto de escrever mais solto.

Há rumores de que os Racionais vão acabar logo, e esse trabalhos reforçam essa impressão.

De jeito nenhum. O Racionais está logo ali, guardado numa caixinha. Não abandonamos. Por hora, está cada um fazendo o seu, mas já já a gente abre a tampa da caixa de novo.

Qual o papel de cada um no grupo?

Apesar de eu e o Brown sermos os principais compositores e vocalistas, todos dão opinião em tudo. Até nos trabalho solo, todos mostram para todos, para aprovação ou não. O Ice Blue é a voz no pânico, ele é o Pânico na Zona Sul em pessoa. E o Kléber (KL Jay) é muito mais que apenas o DJ. Ele é o equilíbrio do grupo.

Depois de 22 anos, os quatro Racionais são o quê?

Somos irmãos, sempre fomos. O que complica é a distância entre nós, mas celular existe pra isso.

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