IMS assume acervo de fotografia de Alice Brill

O Instituto Moreira Salles acaba de assumir a guarda de um pouco conhecido (e que constitui raro documento) acervo fotográfico que registra a paisagem urbana brasileira entre os anos 30 e 60. O acervo pertencia à fotógrafa pintora e teórica de artes visuais Alice Brill, alemã radicada no Brasil desde 1934.São cerca de 14 mil negativos. Alice está com 81 anos e vive em São Paulo, onde mantém um ateliê de pintura no Sumaré. A fotografia foi sua paixão inicial, e começou quando tinha 12 anos. Os pais estavam separados e Alice estava em trânsito pela Europa, a caminho do Brasil, onde viveria com a mãe. O pai deu-lhe uma câmera Baby Box, com a qual a menina tirava fotografias 3 X 4. Nunca mais parou."Fotografei cenas de Maiorca, Itália, África e os locais por onde passamos", conta Alice. A pequena câmera existe até hoje e está entre os objetos do acervo assumido pelo Instituto Moreira Salles. "Nos anos 40, eu ganhei uma bolsa de estudos para estudar nos Estados Unidos e trabalhei como fotógrafa voluntária em Nova York", conta.De volta ao Brasil, lembra, resolveu ganhar a vida como fotógrafa. Embrenhou-se nas florestas do Mato Grosso para registrar o modo de vida dos índios brasileiros, a convite de um grupo de estrangeiros. "Era constrangedor fotografá-los abraçados aos índios, mas são coisas que temos de fazer às vezes."Nunca tentou fazer documentários. Alice concorda com a avaliação de Claude Lévi-Strauss, que desistiu de fazer filmes super 8 no Brasil, durante suas célebres exposições, alegando que quando filmava tinha de abrir mão da experiência de olhar a realidade. "É uma verdade", diz Alice. "A foto é uma experiência individualizada; o filme ´anda´, você não fica escolhendo o seu motivo", pondera.Além das atividades artísticas propriamente ditas, Alice Brill tem um respeitável currículo como ensaísta e teórica das artes visuais. Editou, pela Editora Perspectiva, os livros Mario Zanini e o Seu Tempo e Da Arte e da Linguagem. Trabalhou para o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e foi editora da revista de arte e arquitetura Habitat.Em 1990, com o patrocínio de uma indústria de freios, ela editou um livro sobre o artista romeno Samson Flexor, criador do famoso ateliê Abstração, uma oficina onde foram difundidos os princípios do concretismo. A diagramação esteve a cargo de Emanoel Araújo, hoje diretor da Pinacoteca do Estado.Num ensaio dos anos 80, Função da Fotografia na Arte Contemporânea, ela avaliava o valor da fotografia como linguagem e defende uma aproximação intrínseca da atividade com a pintura. "Pelo fato de eu ser pintora, esteve sempre dentro de mim buscar uma composição artística na fotografia", ela diz. "É um impulso natural procurar sempre um ângulo harmonioso."Alice perdeu o pai, Erich, nos anos 40, executado num campo de concentração nazista. Pintor de certa reputação na Europa, Brill veio trazer a filha para viver no Brasil e pintou aqui cerca de 400 obras, entre elas a tela histórica intitulada Salto de Itu, feita entre 1935 e 1936. A obra está hoje no Museu Republicano de Itu, doada pela família Brill."É duro dizer isso, porque é meu pai, mas ele foi realmente muito estúpido", diz Alice. "Era politicamente muito ingênuo e não acreditava no que estava acontecendo naquela época; dizia que os alemães eram um povo muito civilizado." Mesmo depois de preso e libertado uma primeira vez, Erich Brill recusou-se a sair da Alemanha. Pouco tempo depois, foi executado.Aqui no Brasil, a filha Alice tornava-se muito amiga de diversos intelectuais da época, como os fotógrafos Hans Gunter Flieg e Hildegard Rosenthal. Integrou-se aos pintores do Grupo Santa Helena, a quem foi apresentada por um dos seus professores Paulo Rossi Osir. E conheceu Stefania Bril, que apesar do sobrenome não é sua parente."Éramos muito ligadas pelo pensamento", diz a fotógrafa. "Mas o sobrenome é coincidência, embora nós considerássemos essa hipótese." Stefania Bril definiu assim a fotografia, em artigo no suplemento Cultura do jornal O Estado de S. Paulo: "De um lado estão os estudos de movimento (Muybridge, Marey), que fascinam os futuristas. De outro, os fotógrafos como Moholy-Nagy e Man Ray, que criam fotogramas e raiogramas que se assemelham a pinturas abstratas."Entre as imagens doadas, informou o Instituto Moreira Salles, está a clássica cena de um café dos anos 50 no centro de São Paulo. Esse flagrante da artista foi requisitado ao instituto por uma gravadora alemã, que vai utilizá-lo na capa de um CD sobre choro brasileiro.O acervo de Alice Brill será catalogado pelo IMS e em seguida será disposto para consultas, na sede do instituto e por meio da Internet. "Não doei meu acervo ao instituto com a intenção de não fotografar mais, isso nunca foi decidido", afirma Alice, com contundência. Ela mantém ao seu lado a velha Roleiflex, com a qual ainda faz, esporadicamente, fotos para si.

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