Imre Kertész ganha Nobel de Literatura

O escritor húngaro Imre Kertész, que escreveu romances sempre centrados em sua experiência em um campo de concentração nazista, ganhou hoje o Prêmio Nobel de Literatura, equivalente a US$ 1 milhão, por ter explorado como os seres humanos sobrevivem à barbárie. O mérito de Kertész é saber fazer arte literária e cultura tendo como fonte de inspiração a desolação e a neurose.Kertész, de 72 anos, nasceu em Budapeste, em 1929, foi preso e deportado para Auschwitz quando tinha 15 anos, em 1944, e depois para Buchenwald, e foi libertado em 1945. A partir de 1953, começou a se dedicar à escrita e à tradução. Segundo a academia, ?a resistência, no caso de Kertész pode ser percebida claramente em seu estilo, que lembra um tronco espinhoso, denso e dilacerante para os leitores que não esperam por isso?. Ainda segundo argumentação da Academia Sueca, ?Para ele, Auschwitz não é uma experiência excepcional. É a verdade máxima sobre a degradação do ser humano na história moderna". ?Minha reação imediata foi de grande alegria?, disse o escritor em Berlim, onde ele escreve seu novo romance, Liquidação. ?Este prêmio significa muito para mim. Na Hungria não se tem muito conhecimento sobre o genocídio dos judeus. Acredito que com este reconhecimento o genocício será encarado mais de frente do que o foi até agora?, acrescentou.O prêmio destaca seu primeiro romance, publicado em 1975, Sorstalanság, 1975 (Ser sem Destino), considerado por muitos críticos o melhor romance jamais escrito sobre o holocausto e uma dos grandes obras do século 20. Com traços claramente autobiográficos, Kertész conta a história de Köves, um jovem preso e levado a um campo de concentração que consegue sobreviver. Trata-se de um de seus livros mais traduzidos no mundo, em alemão, húngaro, inglês, francês, espanhol. No Brasil, a editora Imago publicou um outro livro de sua autoria, Kadish por uma Criança não Nascida, uma releitura do Kadish, uma prece judaica pelos mortos de muita importância no contexto da religião judaica.Sorstalanság (Ser sem Destino) foi publicado primeiramente em alemão e rendeu-lhe celebridade imediata. Mas só saiu na Hungria 20 anos depois. Em seguida, publicou A Kudarc, e Kaddis a Meg nem Születettett Gyermekért (Kadish por uma Criança não Nascida), que remetiam ao projeto inicial, formando uma trilogia. Kertész publicou outras obras em prosa: A Noyomkeresö (O Patrulheiro), em 1977 e Az Angol Labogó (A Bandeira Inglesa), em 1991.Em 1992 publicou Gályanapló (Diário de Galé), um diário escrito de forma ficcional recobrindo o período de 1961 a 1991. Valaki Más : a Változás Krónikája (Eu, Outro: Crônica de uma Metamorfose), em 1977, continuando seu monólogo interior na forma de notas referentes ao período de 1991 a 1995. As mudanças políticas de 1989, que culminaram com a queda do Muro de Berlim e posterior reunificação da Alemanha, permitiram a Kertész maior comunicação com o público. Seus ensaios foram reunidos em coletâneas como O Holocausto como Cultura, em 1993, Momento de Silêncio enquanto o Pelotão de Execução Recarrega, em 1998, e A Linguagem do Exílio, em 2001, entre outros. Kertész também ganhou a vida como jornalista, trabalhando num jornal que logo tornou-se órgão oficial do partido comunista, levando-o a desligar-se do veículo em 1951. Depois, começou a escrever comédias musicais e peças de teatro. Trabalhou também como tradutor para o húngaro de obras de Friedrich Nitzsche, Sigmund Freud, Hugo von Hofmannsthal, Elias Canetti, Ludwig Wittgenstein, Arthur Schnitzler, entre outros.Os 18 membros integrantes de Academia Sueca, fundada há 216 anos, selecionaram o ganhador sob extremo sigilo, em suas reuniões semanais, e só anunciaram poucos dias antes qual seria a data em que fariam o anúncio do vencedor. O prêmio do ano passado coube a V.S. Naipaul, um romancista e ensaísta inglês nascido em Trinidad, cujos pais têm ascendência índia. Veja a lista completa dos escritores premiadosO prêmio será entregue no dia 10 de dezembro, data do aniversário da morte de Nobel, em 1896.

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