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Improvisos

Mike Nichols e Elaine May formavam um par cômico. Os dois em início de carreira. Parte do número deles consistia em pedir que alguém da plateia sugerisse um tema sobre o qual improvisariam. E mais, que o público também sugerisse o tom e o estilo do improviso. Por exemplo: a queda do Império Romano contada como uma opereta da "belle époque", ou Guerra e Paz numa versão gospel. Os dois inventavam, na hora, cenas, diálogos e letras de acordo com os pedidos, e nunca eram menos que brilhantes. Quando o duo se desfez, Mike Nichols foi ser um diretor de teatro e cinema famoso, Elaine May uma roteirista, diretora e atriz não tão famosa. Nichols morreu na semana passada. May, me informa o Google, ainda está viva.

LUIS FERNANDO VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2014 | 02h06

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Imaginei como eles atenderiam a um pedido para contar o que se passa no Brasil, hoje, no estilo de um filme "noir" americano dos anos 40.

- O sujo do Al ("Maleta") Youssef está contando tudo. Dando nomes, cifras, tudo. Eles chamam de delação premiada. Eu chamo de canalhice.

- Precisamos matar esse canário.

- Difícil. Ele está na gaiola.

- Gaiola?

- Prisão.

- Ah. Não tem ninguém da nossa gangue, lá dentro, que possa envenena-lo?

- Você está brincando? Toda a nossa gangue está lá dentro!

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Dilma indecisa quanto à formação do seu ministério, num solilóquio shakespeariano:

- Ser ou não ser de esquerda, quando a direita me chama como um abismo...

Ser autêntica e atrair a ira de um Congresso rebelde e de um mercado que treme como num sismo?

Ou esquecer ideais e aceitar os conselhos de alguém que não sou eu e escolher o Levy e a Kátia Abreu?

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A falta d'água em São Paulo recontada como uma parábola bíblica:

E Deus apareceu para Alckmin e disse: "Suas preces foram ouvidas, choverá 40 dias". E Alckmin disse: "Sério?". E Deus disse "Palavra de Deus". E instruiu: "Construa uma arca, pois a chuva trará um grande dilúvio que cobrirá São Paulo, e só os que estiverem na arca sobreviverão". E Alckmin disse: "Senhor, obrigado pela boa intenção, mas...". E ponderou: em vez de fazer chover por 40 dias e submergir São Paulo, por que Deus não regulava a quantidade do que cairia sobre o Estado, como sempre fizera, e mandasse apenas o bastante para encher os reservatórios? Não era preciso nada espetacular como 40 dias de chuva, ou pouco pratico como uma arca em que coubesse todo o mundo. Ou quase todo o mundo. Sim, porque haveria a questão política: quem incluir e quem excluir da arca? Quem salvar do dilúvio para reconstruir São Paulo quando as águas baixassem? Não poderia ser só gente do PSDB, por mais que isto fosse o recomendável. Outra coisa: só seria possível construir a arca com auxílio do governo federal. Deus teria que aparecer para a Dilma, também, e convencê-la a ajudar. Depois haveria a questão de dividir os créditos pela obra, o PT fatalmente iria querer ser reconhecido. E outra coisa... Mas Deus já estava se afastando, dizendo "Esquece, esquece...". Alckmin ainda gritou: "Quem sabe 10 dias de chuva? 15?". Mas Deus já tinha desaparecido.

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