João Miguel Pinheiro/Divulgação
João Miguel Pinheiro/Divulgação

Improviso e processos rudimentares dão cara a cenário de 'Alexandre e Outros Heróis'

Casarão centenário do Nordeste foi restaurado com chá nas paredes e mãos de operários para parecer antigo

João Fernando, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2013 | 11h00

Por tratar de uma época em que os coronéis do Nordeste estavam em alta, a equipe de Alexandre e Outros Heróis parece ter entrado no clima. Conhecido por atuar em todas as frentes de suas produções, Luiz Fernando Carvalho, que dirige, roteiriza, edita e até faz as vezes de cinegrafista, conta com um braço direito no seu entourage.

“Ele me chama de jagunço”, revela Raimundo Rodriguez, 50 anos, diretor de arte e responsável pelos cenários do especial da Globo. Parceiro do diretor em outras atrações como Hoje É Dia de Maria e Capitu, o artista passou quase dois meses em Pão de Açúcar (AL) para deixar o casarão centenário do jeito que precisava. “Andamos por várias cidades e fazendas. Foi justamente na última que eu encontrei. Recuperamos telhados, reconstituímos madeiras pintadas e restauramos um piso de cerâmica feito à mão.”

Mesmo com um cargo de diretor, ele arregaça as mangas. “Se você estivesse aqui, veria que estou de capacete e luvas. Trabalho 15 horas por dia. Tenho mais de 30 anos de carreira e meto a mão na massa do início ao fim”, disse ao Estado por telefone.

Para a empreitada, ele recrutou 15 operários locais e precisou convencê-los a mudar os hábitos. “Eles não trabalhavam às segundas porque é o dia de feira lá. Foi uma tarefa difícil, pois a televisão sempre tem um prazo curto”, justifica ele, que não se incomodou com o fato de ter de se virar sozinho em parte dos dias. “Se eu não me envolvo, não me interessa fazer aquele trabalho. Dinheiro não é o que me move, tem de ter amor. Senão, o trabalho não é reconhecido.”

A milhares de quilômetros das facilidades do Projac, sede dos estúdios das produções de ficção da Globo, Rodriguez usou recursos simples para deixar a casa com cara de anos 1940. “Minha verve é aproveitar o que tem. Se não tiver tinta, uso barro. Compramos todo o estoque de chá preto da cidade para envelhecer as paredes. Faço sempre um processo natural. Fiquei horas passando a mão com cera de chão na parede.”

Até o equipamento de gravação, cujas imagens são feitas em alta definição, passou por um processo rudimentar. “Fizemos refletores (que iluminam a cena) com papel vegetal”, entrega o cenógrafo, que foge na hora em que a câmera está ligada. “Não vou ao set. Não gosto, acho tenso”, confessa ele.

Há anos trabalhando com Luiz Fernando Carvalho, Raimundo Rodriguez teve surpresas. “Quarenta minutos antes de gravar, ele queria que eu arranjasse uma mala de boticário de época. Quando comecei tentar fazer, descobri que a viúva do boticário da cidade ainda tinha a mala dele”, conta. Apesar do pedido difícil, ele jura não se importar com as exigências do diretor. “É importante não dizer não. Tenho muita fé de que tudo vai dar certo”, ensina ele, que assinará os cenários de Meu Pedacinho de Chão, nova novela das 6 comandada por Carvalho, prevista para 2014.

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