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Humberto Werneck
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Implicâncias & esquisitices

À minha frente na mesa do restaurante, já com a conta paga, ele se estende na tentativa de me provar que o irmão mais velho, também na casa dos 70, sempre foi "um esquisito". Confiante em que virão ilustrações saborosas, faço cara de quem ainda não se convenceu. Meu interlocutor fecha os olhos, suspira, e, baixando às profundas da adolescência, traz de lá o argumento decisivo:

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2015 | 02h06

- Você conhece alguém que guarda o pinto no lado direito?

***

Desconsolada, minha amiga fala da agonia que tem sido, não só para ela, catar na população masculina um espécime com o qual possa chegar, já nem diz a um casamento, mas a um namoro capaz de atravessar duas ou três estações do ano. Homem, generaliza ela, só quer saber de "ficar".

Para lhe trazer um grão de alegria, tento, sem êxito, fazer graçola - e digo que a famosa frase de Pedro I, "diga ao povo que fico!", talvez tenha sido endereçada não à nação brasileira, como se lê nos livros de História, mas à dama com quem ele bandeirosamente "ficava" - Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos.

Minha amiga sorri por mera polidez, antes de retomar o ar abatido e sentenciar:

- O problema dos ficantes é que eles não ficam...

***

Coisa ruim dificilmente vem sozinha, e chegou o dia em que lhe deram a má notícia: o ex-marido com outra.

Convocada em regime de urgência, a melhor amiga deixou que ela percorresse todos os meandros da dor de cotovelo, da fúria em carne viva às lágrimas da autocomiseração, e só então pingou uma gota de bom senso:

- Não foi você mesma que largou dele?

O bastante para vir de lá um rugido de indignação:

- Mas não admito que mexam nos meus arquivos!

***

Há coisas a que só com a idade você passa a ter direito. Não me refiro, aqui, ao cartão geriátrico (reparou na figura do velhinho patético que se apoia na bengala?) para viajar de graça no ônibus ou metrô, e muito menos ao repulsivo rótulo "melhor idade", invenção, por certo, de quem nunca esteve lá. Falo de conquistas de outra ordem. Esta aqui, por exemplo: às vésperas de completar 60 anos, a escritora Hilda Hilst me disse que não via a hora de atingir o patamar dos 70, o que finalmente lhe daria direito de "usar um xale, ter uma corcunda".

Não chego a tanto, mas acredito que a prolongada permanência neste mundo (estou prestes a entrar na idade do xale e da corcunda) já me autoriza umas tantas implicâncias.

Assim sendo, faço saber à praça que acabo de incorporar à minha coleção de abominações, na mesma prateleira do "beijo no coração" (ou em qualquer outra víscera) e do coraçãozinho armado no ar com as duas mãos, este horror que alguns desferem no momento das apresentações:

- Prazerão!

***

Ali pelos 20 anos, fiquei preocupado quando soube que tinha um desafeto na praça de Belo Horizonte. O primeiro, achava eu. Que fazer? Mais uma vez recorri a um querido e experiente amigo, o contista Murilo Rubião, que me levara para trabalhar com ele no Suplemento Literário. Além de padrinho nas letras, Murilo acabou acumulando funções de confidente e orientador para as questões deste mundo. Foi ele que, entre outras artes, me ensinou a tratar com gente doida, o que ainda hoje me tem sido de valia.

O desafeto em questão não era doido - antes fosse -, mas um pretensioso colunista, inimigo da gramática e da ortografia, cuja precariedade de caráter era do conhecimento municipal, quiçá estadual. Dito o nome, Murilo abriu um sorriso:

- Ah, esse não serve. Arranja inimigo melhor.

***

Se você me leu na semana passada, talvez se lembre da previsão que fiz: com os reservatórios do Sudeste cada vez mais secos, aponta no horizonte o dia em que Jesus voltará para fazer vinho virar água. No restaurante, uma versão hidrológica do sommelier vai nos recomendar um "turvo" de boa safra, o Sabesp 2015.

Faltou dizer, lembra o leitor Maurício, que esse néctar será degustado à luz de velas - não por romantismo, mas porque além de água já não haverá energia elétrica.

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