Imperfeita marcha da vida natural

É difícil lembrar outro momento no mercado editorial em que dois livros de ciência escritos de modo acessível e atraente por cientistas brasileiros tenham sido publicados simultaneamente. A Longa Marcha dos Grilos Canibais, de Fernando Reinach, e Criação Imperfeita, de Marcelo Gleiser, usam linguagem clara e primeira pessoa para falar de assuntos atuais da biologia e da física, mas não apenas com fins didáticos; oferecem opiniões e interpretações próprias, resultados de anos de pesquisa e reflexão sobre os temas. A noção de que o escritor de ciência, o "divulgador", reserva apenas a superfície das ideias para o leitor, escondendo a profundidade em seus laboratórios e aulas, não é exata. Stephen Jay Gould, por exemplo, foi um grande escritor biólogo porque também foi um grande biólogo.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Reinach, nascido em 1956, é biólogo graduado na Universidade de São Paulo e Ph.D pela Universidade Cornell (EUA); foi um dos coordenadores do projeto brasileiro que sequenciou o genoma da bactéria Xylella fastidiosa e hoje dirige empresas ligadas à biotecnologia. Os 128 textos reunidos no livro (Companhia das Letras, 400 págs., R$ 45) foram publicados aqui em O Estado de S. Paulo entre 2004 e 2009. A estrutura deles é muito simples: Reinach parte de alguma notícia ou estudo que leu em alguma publicação especializada, sobretudo as revistas Science e Nature, descreve o experimento e comenta suas implicações. Na introdução, diz que tenta "mimetizar o formato dos trabalhos científicos", contrapondo o que se sabia sobre o assunto e o que o estudo revelou e fechando o texto com uma especulação sobre o significado disso.

Essa pegada narrativa, que remete a Jay Gould e é praticada por Richard Dawkins nos contos reais de A Grande História da Evolução, é muito eficiente. Não é como assistir às belas imagens de um programa de TV como Life, do Discovery Channel, mas tem um efeito semelhante, o de nos alertar para as capciosas complexidades da natureza, que tantas vezes enganam até os sentidos mais básicos. O objetivo não é apenas registrar fatos, mas sobretudo repensar conceitos por meio deles. Quando escreve sobre "o sucesso dos laupalas no Havaí", por exemplo, diz logo na primeira linha: "A extinção é o destino de todas as espécies." Eis uma frase que pega o leitor e o leva para o caso das novas espécies de gafanhotos ainda sendo geradas hoje ? e até a conclusão sobre como ainda ignoramos espécies no solo terrestre.

Para quem ainda não entende por que coletâneas de textos já publicados em jornal são editadas, a leitura em conjunto dessas crônicas da vida natural ressalta qualidades que na periodicidade semanal nem sempre são percebidas. No caso de Reinach, uma delas é o humor. Ele pode começar um texto assim: "Para a maioria dos machos, o ato sexual é o resultado de uma batalha exaustiva." Outra qualidade é a coerência de seus posicionamentos. Reinach discorda do catastrofismo de alguns ambientalistas, mais ainda de sua pretensão de intervir na natureza, mas o tempo todo mostra que existe, sim, um aquecimento global e que o ser humano tem, sim, responsabilidade nisso. Em destaque, chama atenção para o problema da superpopulação.

Gleiser, nascido em 1959, é físico graduado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor no Dartmouth College (EUA), pesquisador premiado em cosmologia e autor de livros como A Dança do Universo. É colunista da Folha de S.Paulo e já apresentou quadros no Fantástico, da TV Globo. Criação Imperfeita (Record, 368 págs., R$ 490,90) não é uma coletânea, e sim um livro que parte de suas memórias, usa capítulos bem curtos e desenvolve a tese de que a busca da chamada Teoria do Tudo ? que busca unificar a relatividade e a física quântica num completo sistema explicativo ? não será bem-sucedida. É como se ele dissesse que "ou é teoria ou é tudo": o universo sem imperfeição não existe.

Ele critica especialmente a ideia do "universo elegante" (título de um livro de Brian Greene, outro físico escritor), aparentemente de origem estética, que menospreza a força das assimetrias no universo, como se houvesse um "código oculto" (como na teoria das supercordas) capaz de decifrar todo e qualquer fenômeno, desde os cósmicos até os subatômicos. A crítica não é nova, mas o lance ousado e por isso bem-vindo de Gleiser é associar essa ideia de um conjunto universal de regras à "bagagem monoteísta". Ele conta que buscou a ordem fundamental durante anos, mas que agora acredita que a noção de uma Teoria Final é "absurda, pois supõe que nos é possível conhecer tudo". Mesmo o LHC, o fascinante acelerador de prótons construído na fronteira franco-suíça para tentar identificar a matéria mais presente no universo (a "matéria escura"), não significa que teremos explicação suficiente.

Gleiser defende sua opinião contando aos leitores o que são interações fraca e forte, as duas teorias de Einstein, radiação de fundo, etc. Como Reinach, usa poucos jargões e remete a outras leituras. Como Reinach, parece também que teme se afastar demais da compreensão do leitor e com isso frustra às vezes aquele mais iniciado, que sente que eles poderiam ir além em estilo e repertório. Mas no Brasil a alta literatura de divulgação científica, que consegue atrair os dois tipos de leitores, ainda está nos primórdios. Quem sabe essa dupla de lançamentos não seja seu Big-bang ou, para não ficar apenas na metáfora de uma disciplina, seu salto evolutivo?

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