Impacto e vertigem, charque e azulejo em exposição

Poucas culturas visuais são tão teatralizadas quanto o barroco brasileiro. "Talvez o mexicano", pondera Adriana Varejão, que inaugura nesta quinta-feira na Galeria Camargo Vilaça sua mais recente exposição, Azulejão, conjunto que dá continuidade à sua pequisa sobre a corrente estética, da qual empresta emblemas como os azulejos (que fotografa há dez anos, mundo afora), mas também o aspecto cênico de uma produção visual marcada por imagens, cores e formas, antes de tudo, dramáticas.Por isso o impacto do visitante que se depara com a primeira parte da exposição. Instalados no andar de baixo do local, grandes painéis ocupam duas paredes - na verdade, uma composição de 70 telas em gesso e óleo sobre tela - do lado oposto de quem entra. A sensação de vertigem é comparável àquela que se tem da porta de uma igreja barroca, o único local que o olhar suporta todas as informações que cobrem o espaço interno desse tipo de templo. Ao chegar mais perto das paredes, as ampliações se apoderam do campo de visão, como fazem as paredes de igrejas barrocas vistas de perto. "É como levar um grande caldo de uma onda em Pipeline, no Havaí", compara Adriana.A artista garante, entretanto, que o impacto cenográfico não é intencional. "Não penso em causar nada quando estou fazendo meus trabalhos." Mas causa emoções diferentes, como repulsa e atração com o outro elemento que privilegia em suas pesquisas, a carne. "Não vejo a carne como algo mórbido", diz ela, que recentemente fotografou dezenas de açougues mexicanos para uma exposição realizada na própria galeria. "É a visualidade desse material que me interessa."Adriana agora trabalha com a carne seca. No mezanino da galeria, ela apresenta suas chamadas pinturas escultóricas, objetos de chão e paredes que construiu associando o charque a azulejos azuis. Esses, contudo, já não trazem a memória colonial explícita. Lembram mais balcões de açougue, de bares ou de hospitais, outras referências do repertório da artista plástica carioca, que na Bienal de São Paulo de 1994 mostrou uma instalação com soro, maca, implastro sabiá e outros elementos hospitalares.Em comparação com trabalhos anteriores, as peças trazem um elemento de sutileza na contraposição da carne com o azulejo. O aspecto marmorizado do charque - menos visceral que as muitas qualidades do alimento utilizadas anteriormente - aparece entre os quadrados frios de forma discreta, bastante diferente das grandes feridas sugeridas em obras anteriores Também nesses objetos não há inscrições ou reproduções de estampas, o que distancia a conotação política. "Na verdade, esses trabalhos são o início de uma nova série bem maior que pretendo começar a desenvolver", acrescenta ela.Adriana Varejão - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, até 14 horas. Galeria Camargo Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 31/10. Abertura dia 05, às 20 horas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.