Imigração e família, temas de Bouchareb

Diretor francês de origem argelina, Rachid Bouchareb nega que esteja fazendo um cinema revisionista, mas nos últimos anos ele tem colocado o dedo em feridas que ainda dividem a sociedade da França. Elas se referem ao legado colonial do país. Indigènes (Dias de Glória) foi premiado em Cannes por seu retrato de descendentes de argelinos que eram considerados cidadãos de segunda categoria na França e, mesmo assim, deram a vida pela pátria que os rejeitava, durante a 2.ª Guerra. Bouchareb voltou a Cannes este ano e e houve até protesto contra ele na Croisette. Tudo por causa de Fora da Lei, que trata da repressão a resistentes da causa argelina.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

Fora da Lei estreia em janeiro nos cinemas brasileiros, mas a partir de hoje você já poderá vê-lo em algumas sessões na Mostra de São Paulo. Chega um dia depois que o filme anterior de Bouchareb, com Brenda Blethyn e Sotigui Kouyaté, saiu de cartaz no circuito de São Paulo, London River. Sotigui, que morreu em abril, foi melhor ator em Berlim, no ano passado, por seu papel como imigrante que se une a uma mãe inglesa para procurar os filhos de ambos, que desapareceram no quadro da repressão montada para enfrentar uma ameaça de explosão terrorista na capital da Inglaterra.

São dois filmes sobre imigração e família. Não vai nisso nenhuma coincidência. Numa entrevista por e-mail, Bouchareb confirma que são os temas que mais o interessam. "Claro que é pela minha origem, mas me interessa abordar os conflitos e as tensões entre diferentes culturas e religiões, entre diferentes meios sociais. Gosto de tratar desses assuntos, mas finalmente o que me atrai, como tema, são as possibilidades de encontros e o reconhecimento do outro." A ameaça do terrorismo e a insegurança que ela provoca na polícia desaparelhada podem levar a incidentes graves como o que resultou na morte do brasileiro Jean Charles no metrô de Londres. Houve até um filme nacional recente, contando a história. O repórter a repassa para Bouchareb. Ele afirma que uma tragédia como a de Jean Charles era justamente seu tema "e o que ele queria contar em London River".

Protestos. No que se refere a Fora da Lei, o autor se surpreende que, 50 anos depois de O Pequeno Soldado, de Jean Luc Godard, e A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo - que foram censurados na década de 1960 -, "esse tipo de coisa esteja ocorrendo de novo" com seu filme. Veteranos da Guerra da Argélia protestaram contra o filme de Bouchareb e contra o que, para eles, é uma distorção da história. A distorção deve-se ao fato de que o cineasta conta a repressão do ponto de vista de uma família de argelinos. Para Bouchareb, Indigènes e Fora da Lei são díptico. "Indigènes termina em 1945 e Fora da Lei começa em 1945. O segundo completa um ciclo." Apesar do formato, não se trata de um filme de gângsteres - "É um filme policial em que os heróis são resistentes."

E Bouchareb diz mais - "Em Cannes, muita gente escreveu que Fora da Lei era antifrancês, o que não é o caso. Mas trata de certos fatos históricos que ainda provocam controvérsia. A TV foi parceira. Eles leram o roteiro, a história agradou, os personagens também, e resolveram investir no projeto." Bouchareb revela o que, afinal, ama na França - "É uma terra de liberdade, na qual um filme como Fora da Lei pode obter financiamento e ser feito." O filme concorre à indicação para o Oscar pela Argélia. "É uma coprodução franco-argelina, feita com o apoio dos ministérios da Cultura de ambos os países, e isso é muito importante", ele diz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.