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Imaginação e risco em conto coletivo

Valter Hugo Mãe, Carol Bensimon, Ronaldo Correia de Brito e Inês Pedrosa experimentam ficcionar em grupo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h00

No último dia do ano, sempre anunciador de mudanças, o Sabático reúne um quarteto de autores com pouco trânsito no chamado groupware, ou seja, em tarefas comuns que, na linguagem da internet, seria o equivalente a um software colaborativo. Decidido quem iria dar a partida na missão - a de construir um conto a oito mãos, disponível para leitura a partir da página ao lado -, era inevitável que alguém ficasse incumbido da avaliação do resultado desse trabalho coletivo de escrita. Alcides Villaça, professor de Literatura da USP, foi o crítico escolhido para esta tarefa. Já os autores são dois homens e duas mulheres, todos consagrados e quase todos premiados. Pelo marco zero do conto ficou responsável o escritor português (de origem angolana) Valter Hugo Mãe, de 40 anos, autor de A Máquina de Fazer Espanhóis e seguramente o mais popular entre os autores convidados da última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Continuou sua história a escritora gaúcha Carol Bensimon (Sinuca Embaixo d’Água), de 29 anos, seguida pelo cearense Ronaldo Correia de Brito (Galileia), 60 anos, e pela portuguesa Inês Pedrosa (Os Íntimos), 59 anos, que conclui o conto sobre dois casais de idosos, um morando numa casa ao lado da igrejinha da aldeia e outro à beira de um precipício, únicos habitantes que restaram no lugar.

Dar prosseguimento a uma história inventada por outro não é, evidentemente, tarefa fácil. O próprio Valter Hugo Mãe observa que "há uma oscilação na narrativa" e comemora ter sido o escolhido para escrever a primeira parte dela. "Criei uma atmosfera, um problema, mas não tive de enfrentar a solução." Carol Bensimon, que nunca visitou uma aldeia portuguesa, sabia que seu antecessor estava falando de uma realidade que ela mal conhecia. A saída, diz, foi se imaginar numa fábula, recorrendo a uma técnica cinematográfica, a do flashback, capaz de revelar algo sobre as enigmáticas figuras dos idosos. "Queria saber mais sobre eles e recriei o casal na juventude, imprimindo alguma coisa da minha geração."

Ronaldo Correia de Brito, mais habituado a criar a quatro mãos - ele é parceiro de Assis Lima no roteiro do filme Lua Cambará e em peças teatrais -, tinha como modelo de obra em colaboração o da dupla Jorge Luis Borges e Bioy Casares, mas percebeu que, ao receber as duas primeiras partes do conto, ele não sairia tão homogêneo. "Valter Hugo Mãe imprimiu um ritmo de muita poesia, fornecendo a atmosfera do conto, enquanto Carol teceu a trama à qual tivemos de nos adaptar, uma situação nada confortável, o que me fez concentrar nos personagens", justifica. Brito lamenta apenas que o conto não tenha seguido a sutil metáfora religiosa de Hugo Mãe - o confronto espacial entre uma casa à beira do abismo e outra grudada a uma igreja.

Pois foi justamente o que a escritora portuguesa Inês Pedrosa buscou evitar, cortando a sugestão deixada pelo colega brasileiro na última frase da terceira parte, em que Brito fala da possibilidade de um milagre - que bem poderia aproximar os dois casais, avessos ao diálogo. "Valter domina a paisagem principal da narrativa e não tenho o conhecimento do mundo rural como ele, sendo minha estranheza a mesma de Carol, o que me obrigou a ficar mais concentrada nos personagens, por serem mais universais."

O professor Alcides Villaça reitera a observação de Correia de Brito sobre o desvio da rota inicial do conto, que renderia um embate religioso. Apenas como sugestão, é recomendável começar a leitura pela página ao lado. Após a conclusão do conto, um pouco à maneira do Jogo da Amarelinha de Cortázar, o leitor pode voltar à página 2 e ler Villaça, conhecendo sua opinião sobre o fim desta aventura.

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