Imagens radicais

Mostra reúne fotos de mestres do passado e modernos que registraram a beleza e o horror

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2011 | 06h10

As últimas palavras do enigmático Kurz, no livro O Coração das Trevas, do polonês Joseph Conrad, ao sentir a aproximação do inglês Marlow com a vela (física e metaforicamente) iluminadora da civilização não foram "mehr licht" (mais luz) como as de Goethe, mas "o horror! o horror!". O que teria visto Kurz? Seu passado como deus dos canibais no Congo belga ou o próprio futuro no inferno? Talvez ambos. No mesmo lugar onde reside o horror também pode viver a beleza. É esse movimento pendular entre a luz e as trevas que segue a exposição Extremos: Fotografias na Coleção da Maison Européene de la Photographie - Paris, que o Instituto Moreira Salles (IMS), em parceria com o museu parisiense, abre hoje, às 19h30.

São 100 imagens radicais de grandes mestres do passado, que variam da bela paisagem de um povoado do Novo México pelo norte-americano Ansel Adams (1902-1984) ao horror apocalíptico da coluna de fumaça do cogumelo atômico que atingiu mais de 6 quilômetros de altura às 8h17 da manhã de 6 de agosto de 1945. Foi nesse dia que o Enola Gay despejou sobre Hiroshima a bomba que destruiu a cidade japonesa. A foto, a propósito, foi tirada pelo sargento George Robert Caron (1919-1995), tripulante do bombardeiro B-29 e primeiro homem na face da Terra a testemunhar que o apocalipse bíblico não foi um delírio do apóstolo João na ilha de Patmos.

Outra foto de Hiroshima, de Shomei Tomatsu, que mostra um relógio derretido pela explosão, foi comprada pela Maison Européene de la Photographie especialmente para a mostra. "Uma exposição que trata de extremos não poderia deixar de incluir a destruição de Hiroshima ou o primeiro passo do homem na Lua, gestos radicais então sem registro entre as 25 mil fotografias do museu parisiense", justifica o fotojornalista Milton Guran, coordenador do encontro internacional de fotógrafos FotoRio, que ajudou o diretor da Maison Européene de la Photographie, Jean-Luc Monterosso, na curadoria da mostra, montada com a colaboração do coordenador de fotografia do IMS, Sergio Burgi.

A filósofa francesa Seloua Luste Boulbina, que se mudou para a Argélia depois da independência, retornando depois ao país natal, entende muito de colonização e do horror kurziano. A ela se deve um texto (no catálogo) sobre a desmedida em que vive o homem contemporâneo e responde pelo horror visto na centena de fotos da mostra. Boulbina pergunta se o extremo não nos tocaria justamente porque ele "habita, sem que percebamos, nossos dias". O mundo não estaria mergulhado na "hubris" grega, na arrogância e insolência do homem moderno? "É por isso que, distantes do que é comum e familiar, a arte e a fotografia podem se assemelhar a uma galeria de espelhos ou de monstros", diz ela, concluindo: "A escolha é sua".

O visitante da mostra do IMS tem, de fato, muito o que escolher. As fotos selecionadas pelos curadores cobrem 65 anos de produção e trazem os maiores nomes da fotografia mundial, de Robert Frank e Elliott Erwitt, que registraram flagrantes da segregação racial norte-americana nos anos 1950, ao pós-moderno Andres Serrano, que fotografa cadáveres e assinou, em 1987, a polêmica foto Piss Christ, imagem de um crucifixo de plástico mergulhado na urina do fotógrafo. Serrano, desta vez, não mostra a cruz, mas seu díptico em Extremos registra os braços de um homem esfaqueado até a morte, imagem um tanto forte para estômagos fracos.

"Eu e Monterosso passamos dois anos refletindo sobre o conceito da mostra e concluímos que os extremos deveriam contemplar tanto os exercícios radicais de linguagem como de conteúdo, caso do registro da autodestruição dos viciados em drogas (pelo norte-americano Larry Clark)", justifica o curador Milton Guran. "Pensamos até em desistir do projeto, de tão complexo que era", revela. Montada para o Mês da Fotografia no ano passado em Paris, a mostra já passou pelo Rio e chega a São Paulo em versão menor que a parisiense - apenas no número de fotos.

Os fotógrafos estrangeiros são os mesmos que estiveram na exposição da Maison Européene em Paris. Entre os mortos estão Edward Weston (1886-1958), Richard Avedon (1923-2004), Helmut Newton (1920-2004), Robert Mapplethorpe (1946-1989), Henri Cartier-Bresson (1908-2004) e Pierre Verger (1902-1996). Do mundo dos vivos, nomes como os do brasileiro Sebastião Salgado, o francês Raymond Depardon e o inglês Martin Parr destacam-se entre muitos. Desses, macabro mesmo é o norte-americano Joel-Peter Witkin, um nova-iorquino de 72 anos que usa anões, transexuais, hermafroditas e pessoas deformadas em suas fotos - a mais conhecida mostra a cabeça de um cadáver usada como vaso de flores, mas não está na versão paulistana da mostra.

"Não trouxemos todas as oito fotos de Witkin por uma questão de espaço", explica Guran. "No entanto, o que interessa é mostrar o aspecto sinistro de um fotógrafo que extrapolou, como Diane Arbus", conclui. Como curador, justifica, não cabe a ele julgar o aspecto ético ou moral do trabalho de Witkin, mas simplesmente expor as fotos de um profissional identificado com a transgressão. Curiosamente, Witkin figura no sétimo e último bloco da mostra, O Supremo, integrado por fotos de xamãs ianomâmis em transe (da brasileira Claudia Andujar) e iorubás do oeste da África vestidos com roupas rituais (imagem registrada pelo franco-brasileiro Pierre Verger nos anos 1940).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.