Imagens do Japão pela lente de Maureen Bisilliat

Maureen Bisilliat gastou não mais que duas semanas para captar as 55 imagens de Impressões de um Japão Incomum: Dissertações sobre a Memória (Editora Takano, 48 págs, R$ 40,00), livro que será lançado nessa quarta-feira, no Espaço Cultural da Fundação Japão. E ainda assim, conseguiu reunir o que o título da coleção de fotografias anuncia: imagens surpreendentes de um Japão arcaico, agrário, milenar - um Japão que andou desaparecido de olhares e lentes estrangeiros impressionados com os emblemas da contemporaneidade hoje espalhados pelo país.Parte do Projeto Yugen, evento multicultural promovido pela Fundação Japão, a publicação, segundo a fotógrafa inglesa e diretora do Pavilhão da Criatividade da Fundação Memorial da América Latina, chega nas livrarias (Fnac e Cultura) no dia 10 de novembro. Até amanhã, algumas das fotografias podem ser vistas na fundação, em uma espécie de instalação fotográfica preparada pela artista. "A exposição é apenas uma amostra do que está no livro", avisa a autora.A rapidez da coleta de imagens está diretamente ligada à proposta de Maureen. O livro (no formato de bolso, como deve ser um diário de viagem) tem como base o texto de Lafcadio Hearn, escritor grego, criado na Irlanda, que adotou o Japão como pátria aos 41 anos. Patrick Hearn, seu nome de batismo, afirma a importância da primeira vista: "Não deixe de anotar suas impressões iniciais o mais rapidamente possível". Esse conselho transcrito no livro de Maureen, teria sido dado a Hearn por um professor que conheceu ao chegar no Japão. "Pois elas são evanescentes e, uma vez esmaecidas pelo tempo, nunca mais virão ao seu encontro; no entanto, de todas as sensações que poderá captar deste país, serão as primeiras as mais encantadoras", continua a transcrição que acompanha os retratos.A fotógrafa seguiu à risca o conselho do mestre japonês. Com um roteiro prévio nas mãos e habituada a realizar ensaios em um país bem maior que aquele, o Brasil, ela retratou suas impressões imediatas, as primeiras sensações causadas pelos locais que percorreu. E fez isso com uma velocidade muito maior do que calculava, utilizando trens ou ônibus para transitar pelo país no percurso patrocinado pela Fundação Japão.Dessa maneira, pode conservar em cada imagem o véu da descoberta. "Durante a viagem, não tinha ainda idéia quanto ao destino das fotografias", conta ela, que realizou o trabalho em janeiro de 1997. "Na verdade, as imagens eram como páginas de meu diário de bordo."Ela acredita que esse método investigativo proporcionou o encontro de momentos raros. "Coisas que não acharia se estivesse procurando." É o caso, exemplifica, de uma rudimentar e delicada casa de palha ou dos impressionantes ângulos de uma série retratada em um cemitério em Kaoysan, que a fotógrafa calcula ter séculos. Embebidas em uma névoa esbranquiçada, as peças do local, como imagens de deuses (presença constante no livro), transformam-se em figuras mágicas, oníricas, e reforçam o Japão arquetípico invocado pelas lentes de Maureen.A arquitetura, os telhados, os deuses, as plantações, as árvores, os ritos, as pessoas, todos esses personagens do livro (com desejo ou desprovidos de, como o budismo diferencia os seres das coisas) revelam detalhes pouco comuns do repertório visual japonês para turista. Mas ao mesmo tempo que intrigam, causam desconfiança, as fotografias incitam uma memória ancestral a partir da primeira vista. E ela garante que cada imagem, por mais inusitada que seja, foi encontrada quase sem querer. "É muito fácil achar o Japão que não se espera", define a artista.Impressões de um Japão Incomum: Dissertações sobre a Memória. Editora Takano, 48 páginas, R$ 40,00. Lançamento no centro Cultural da Fundação Japão. Nessa quarta-feira, a partir das 19h

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