Imagens de Veneza, por Bernardo Bellotto

A exposição em cartaz no Museo Correr de Veneza congrega o maior conjunto de obras já reunidas num mesmo local do pintor veneziano Bernardo Bellotto, considerado um dos últimos grandes pintores do século 18, que soube dar continuidade - ainda que sem o mesmo brilho e genialidade - às lições de seu mestre e tio, Antonio Canal, mais conhecido como Canaletto, também agraciado com uma exposição em sua cidade natal.A coincidência de datas entre as duas exposições não só permite que o visitante se aprofunde no campo das "vedutas" setecentistas, como favorece o diálogo entre os dois retratistas da bela cidade construída sobre as águas. Aos 14 anos Bellotto já havia ingressado no ateliê do célebre irmão de sua mãe e algumas vezes chegou a assinar usando o sobrenome materno.Mas, ao contrário da mostra de Canaletto, a seleção de obras de Bellotto não se restinge às pinturas venezianas (ou romanas). O objetivo da exposição do Museo Correr é exatamente o de mostrar o que há de pessoal e único em Bellotto, evidenciar por meio de mais de uma centena de trabalhos como ele vai construindo aos poucos um estilo original e pessoal, sem abandonar as lições técnicas e formais de sua juventude.Não é à toa que suas obras mais delicadas são os "capriccios", obras idealizadas que compõe recorrendo costumeiramente às imagens arcádicas e mitológicas. Ou, melhor ainda, as pinturas apenas esboçadas sem o intuito de atingir a perfeição técnica e atender com precisão às regras do paisagismo "canalettiano". Em várias de suas telas ele recorre tanto à imaginação quanto ao registro da realidade. Há, por exemplo, um curioso capriccio arquitetônico no qual o artista se retratou em primeiro plano vestido como um nobre veneziano. A perfeição com que reproduz os prédios e a arquitetura veneziana não escondem uma certa frieza de tons, que parece tornar as imagens algo sem vida e as figuras humanas e animais um tanto quanto inverossímeis.A maior liberdade criativa de Bellotto se dá com seu afastamento de Veneza. Em 1747, o pintor se une à corte do rei Augusto III de Dresda, onde vive por cerca de duas décadas; ele também trabalha em São Petersburgo e Varsóvia (de onde vieram várias das telas reunidas na exposição), fazendo interessantes registros dos vários lugares por onde passou. São desse período alguns dos poucos retratos exibidos.Sobressaem-se na mostra principalmente as paisagens de caráter mais rural, com um horizonte mais amplo, que dá maior leveza e profundidade à sua pintura, como a bela Vista do Vale de Elba em Direção a Pillnitz e Pirma, uma composição em vários planos - desde a mitológica cena, com animais e camponeses no primeiro plano até os aglomerados urbanos sugeridos ao fundo -, em que parece ter absorvido algumas lições da pintura flamenca.A exposição, que procura suprir uma lacuna de pesquisa em relação ao mais nômade dos setecentistas italianos, termina este mês em Veneza, mas também terá uma versão norte-americana, que será inaugurada no dia 29 de julho no Museum of Fine Arts de Houston, onde fica em cartaz até outubro deste ano.

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