Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

''Imagens de lugares em busca de pessoas''

Wenders fala de seus filmes e fotos na exposição que abre hoje no Masp

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

São fotografias impressionantes, um pouco pelas dimensões. Foram ampliadas e transformadas em quadros imensos - 2 mx5 m (ou 6 m), 3 mx3 m -, tão pesados que os funcionários do Masp têm dificuldade para prendê-los às paredes. Wim Wenders está montando sua exposição de fotos. Ela será inaugurada hoje à noite, para convidados, antecipando a abertura da 34.ª Mostra de Cinema, amanhã, da qual o autor alemão é um dos homenageados. Mas o que impressiona de verdade são as imagens, elas mesmas, de lugares solitários - estranhos e quietos. Quiet and Strange Places. Exatamente o título da exposição.

Quando o repórter chega, Wenders está sentado, na posição clássica do pensador (de Auguste Rodin). Mas logo ele começa a se movimentar e a conversar sobre suas fotos e filmes, como Até o Fim do Mundo, cuja versão integral, com 280 minutos, vem exibir, depois que a reduziu, com exatamente 140 minutos, foi demolida pelos críticos, há 20 anos. Wenders banca o cicerone do repórter. Leva-o para diante das fotos já montadas.

Uma lembra um quadro de Edward Hopper - uma árida paisagem urbana de uma pequena cidade norte-americana, mostrando, numa esquina, uma lanchonete (veja nesta página). "Parece retirada de A Estrela Solitária", seu belo filme com Sam Shepard e Jessica Lange, observa o repórter. "Não é do filme, mas é de Montana, onde filmei." Outra foto mostra uma roda-gigante no meio de uma paisagem desolada, com o que parecem os restos de uma cidade ao fundo. "Essa foto deve agradar particularmente a Leon (Cakoff, o organizador da Mostra, de ascendência armênia). Foi tirada na Armênia. Aquele é o outro ângulo" - e ele aponta outra foto, enorme, que apresenta a mesma roda-gigante, mas agora com outro fundo. As duas parecem rebatimentos. Formam uma espécie de campo e contracampo.

Como no cinema. Wenders considera-se fotógrafo ou cineasta? As fotos são ferramentas para a preparação dos filmes? "Comecei a fotografar bem antes de me tornar diretor. Nunca viajo sem minhas câmeras. E são esses lugares que me atraem", ele observa. Uma cadeia circular de pequenos montes na Austrália, sem uma casa próxima - há um observatório, mas ele foi banido da imagem, tomada do alto, de um pequeno avião. Um cinema ao ar livre. Um banco que dá para uma velha embarcação num estaleiro. A maioria dessas fotos é inédita, mas, sim, algumas já integraram exposições que ele fez ao redor do mundo.

Está contente de voltar ao País. Já veio algumas vezes - a primeira foi para visitar um amigo na Bahia, não tinha nada a ver com cinema. Aponta uma foto no alto de um prédio em São Paulo, outra que tirou na Alemanha, sem saber que a obra que estava retratando era de Osgemeos, os grafiteiros Otávio e Gustavo Pandolfo, que assinaram o cartaz da Mostra no ano passado.

Revela sua atração por Brasília e admite que gostaria de filmar na Capital Federal. São poucas fotos de gente, ou com pessoas. Muitas cadeiras vazias, bancos. "São imagens de lugares em busca de gente, um pouco como no seu cinema", arrisca o repórter. "Um pouco, não. Exatamente como no meu cinema", corrige Wenders. Para arrematar, confirma seu encontros com o público. Após a sessão de Até o Fim do Mundo e numa master class sobre os filmes de sua vida. Existe um filme na vida de Wenders? "Um só? A Regra do Jogo, de (Jean) Renoir."

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