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Imagens da 'política'

Mas é claro que ela está enferma. Deixou de ser esperança. Virou miséria

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

18 de dezembro de 2019 | 03h00

Foi no final dos anos 50 que eu, interessado, engajado e onipotentemente convencido em transformar o Brasil para melhor, ouvi que “tudo era política”. Naquela época eu aprendia e ensinava que a “política” era algo nobre - era um valor básico da vida. 

Nesse sentido amplo, a política era como a vontade para o filósofo Schopenhauer e, guardando as proporções, o Isso (o Id) é para os freudianos; e o “desejo” para os lacanianos. Hoje, do alto ou do baixo dos meus 80 e tantos anos, eu entendo que essa fatia da vida social que chamamos de “política” era tudo. Quase tanto quanto uma religião oficial ou a língua que falamos e usamos para criar o mundo e, entrementes e sobretudo, nos entendermos mutuamente.

Noto, ainda, que quem não se interessava por “política” não merecia atenção exceto se pudesse ser catequizado, ou seja: se pudéssemos convencer essa pessoa de que a “política”, além de remédio para o Brasil, era melhor do que música, comida e sexo. Sexo, diga-se de passagem, entendido como beijar na boca e abraçar apertado. 

Diante da “política” ninguém deveria ficar indiferente. Se assim ficasse, seria etiquetado como “alienado”. Hoje, vejo orgulhoso que o conceito de Marx era compreendido por nós no seu sentido preciso. Uma consciência alienada era indiferente e ignorante dos perversos mecanismos ilusórios de exploração de classe do sistema capitalista. Meu pai era claramente um alienado porque pensava o Brasil como um país atrasado, mas bom, e a “política” como mais uma malandragem e não como uma “estrutura” a ser preparada para a “revolução socialista” cuja fórmula era conhecida por nós: os “conscientizados”. 

No cenário nacional, Jango, Brizola, bem como o general Lott e Darcy Ribeiro (com quem rompi publicamente, pagando o devido preço) eram “conscientizados”. Tinham a chave da história ao passo que o almirante Pena Boto e Carlos Lacerda eram, além de reacionários, alienados.

Naquela época, o pai de minha namorada era dono de uma fazenda de 100 alqueires e eu - conscientizado e especialista em Brasil - queria convencê-lo a fazer “uma reforma agrária”, coisa que ele abominava, tal como eu hoje abomino uma proposta de dividir minha casa ou poupança...

A gente se sentava na pizzaria Grupa de Capri em Icaraí, Niterói e, entre chopes, falava da revolução brasileira com a mesma facilidade com a qual devorávamos nossas pizzas. Os exploradores eram a “classe dominante” com charutos e roupas pretas, estilo Brecht e não do aparato estatal privilegiado e aristocratizado ao qual, por sinal, alguns dos nossos pais pertenciam.

Discutíamos política e a “direita” era a causa de todos os males, com ajuda do bom Deus e da Igreja Católica. Num belo domingo, recém-casado e começando a dar aulas, movido por minhas convicções esquerdistas e antiburguesas, sai no meio de uma missa de domingo quando um padre reacionário pregou contra a reforma agrária. Minha jovem esposa ficou furiosa e, depois de um duro sermão regado a celibato, eu amaciei.

O golpe de 64, feito por atores não previstos no esquema dos “conscientizados”, abriu minha consciência e orientação intelectual. Sobretudo porque as primeiras notícias que recebi em Harvard, onde estava estudando, de um amigo igualmente conscientizado era a de que os movimentos de tropo eram o início da nossa tão desejada revolução cubana. 

A rapidez dos arranjos políticos pós-golpe me decepcionaram. Em Cambridge, Massachusetts, eu experimentava assustado um ambiente profundamente igualitário e isso marcou minha vida para sempre. Tornei-me mais consciente de minha ignorância de mim mesmo e de minha sociedade. 

Disso resultou o meu estudo do carnaval em paralelo ao do “Você sabe com quem está falando?” - rituais de licença e de hierarquia equilibrados pela malandragem. Publiquei o livro Carnavais, Malandros e Heróis, tratando disso, em 1979. 

Hoje faço, com o antropólogo Marcos Milner, um inquérito sobre o significado da palavra “política”. Quando solicitamos aos entrevistados que eles associem a palavra “política”, constatamos que 50% pensam em corrupção, roubo, crise e indignação. 

Não tenho mais espaço, mas é claro que a “política” está enferma. Deixou de ser esperança. Virou miséria. E ironicamente foi a “esquerda” que a enlaçou com a corrupção.

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