Imagem eterna Karajan

Documentário mostra como o maestro usou gravações de modo político

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Hoje à tarde, o maestro Lorin Maazel, 81 anos, rege um concerto Beethoven com a Orquestra Sinfônica Brasileira na Sala São Paulo. A orquestra vive um 2011 tsunâmico, mas o que interessa neste momento é a utilização de dois dos mais emblemáticos símbolos da música clássica e da vida musical como muletas para uma possível ressurreição do grupo. Beethoven ninguém discute. Quando os concertos andam mal de público, ele sempre é escalado para aumentar o moral da tropa e encher as poltronas da plateia. A outra sacada é colocar no pódio um maestro inquestionável, com prestígio inabalável. Para a polêmica tarefa, Minczuk escalou Lorin Maazel em sua condição de ícone planetário da batuta. Ele é o segundo talismã indicado para conduzir a "virada" na situação da orquestra e de Minczuk. Maazel, que coincidência, é um plano B (Kurt Masur primeiro escolhido, não pôde vir por doença), igualzinho ao técnico Mano Menezes, plano B de Murici Ramalho na seleção brasileira de futebol, que vive nos últimos doze meses atropelada por tsunami semelhante à da OSB.

É impossível prever o êxito da dobradinha Beethoven/Maazel no caso OSB. Mas que a atitude foi correta do ponto de vista mercadológico, foi. Os maestros modernos ainda são capazes de protagonizar, aqui e no exterior, as grandes turbulências e êxitos da vida musical. De Daniel Barenboim a John Neschling, eles são, enfim, os donos do mundo - não chegam a ser ditatoriais como um Toscanini, mas alguns não resistem e exibem cacoetes de tiranetes.

Este perverso culto à figura do maestro consolidou-se, sem dúvida, graças ao maestro austríaco Herbert Von Karajan (1908- 1989). Membro das SS no Terceiro Reich, Karajan conseguiu realizar seu sonho logo após a desnazificação: o produtor Walter Legge criou para ele a Philharmonia Orchestra, em Londres. Em 1955, após a morte de Wilhelm Furtwängler, chutou Legge, ou seja, cuspiu na mão que o reabilitou e assumiu a direção da Filarmônica de Berlim, até sua morte em 16 de julho de 1989.

Chegou, nos anos 60/70, a acumular a direção da Orquestra de Paris, Filarmônica de Viena, Scala de Milão e os festivais de Bayreuth e Salzburgo. Apostou na tecnologia como forma de sobrevivência pós-morte. Fundou a Unitel para produzir, explorar e empilhar gravações em VHS de seus concertos. Ao todo, vendeu cerca de 200 milhões de discos, entre LPs, CDs, VHSs e agora DVDs e Blu-Rays.

Karajan julgava-se imortal. No DVD Maestro for the Screen (ArtHaus), a cena final é de meter medo. Ele está sentado num sofá, muito doente, envelhecido. Encara a câmera e diz com convicção: "Estou convencido de que as pessoas têm várias vidas. Asseguro que voltarei. Goethe disse acertadamente: "Se minha vida interior tem tanto a dar e meu corpo se recusa a servi-la, a natureza tem que me oferecer um novo corpo"''. Concordo integralmente com ele." Pelo menos um corpo potencial já se apresentou: Christian Thielemann .

Amigo íntimo e parceiro comercial de Norio Ohga, capo da Sony entre 1982 e 1989, Karajan morreu em seus braços. Afinal, a Sony era sua garantia de imortalidade. Olhem em volta. Consultem a Amazon. Ele está mesmo presente na vida musical internacional do planeta. Karajan deu instruções precisas a seus comandados. Sua história seria escrita a seu jeito. Assim que sua morte foi anunciada, todo o material de trabalho das gravações de CDs e vídeos foi destruído. Assim, o que fica é só o que tem o seu selo de aprovação pessoal (ao todo, cerca de 70 DVDs). Ernst Wild, o câmera chefe de Karajan, destruiu todos os rolos de fitas com copiões e gravações brutas, "para ninguém se divertir mais tarde com este material". Stalin teria adorado.

Logo que descobriu o imenso poder de fogo do audiovisual, Karajan contratou o diretor de cinema francês Henri-Georges Clouzot. Mas a experiência foi frustrante, como mostra o documentário, dirigido por Georg Wübbolt. Naquele momento, o novo meio propiciou várias obras-primas no reino da música (como o excepcional Crônica de Anna Magdalena Bach, de Straub-Huillet, de 1967). A segunda experiência ocorreu com o cineasta Hugo Niebeling numa integral das sinfonias de Beethoven. Karajan sabia das coisas: "Para mim, é uma satisfação muito grande saber que nosso trabalho não vai se restringir a um punhado de pessoas, que podemos mostrar ao mundo inteiro a beleza da música de Beethoven". Só que Niebeling resolveu criar - fez coisas espantosas ainda hoje com a Pastoral, a Eroica e a Sétima (o DVD mostra detalhes extraordinários que só existem hoje porque pertencem ao arquivo pessoal de Niebeling). O maestro detestou o trato dado aos músicos; queria o foco sempre nele. Meteu a mão no trabalho de Niebeling.

Projetos audiovisuais deste tipo eram, no entanto, muito custosos. Só na Sexta Sinfonia, uma enorme equipe - incluindo os músicos, que tiveram até de dublar suas próprias performances para contraplanos, etc. - trabalhou por seis semanas. Hoje em dia, a crise dita outros parâmetros. Lançam-se às pencas concertos filmados, com maior ou menor adequação, pouco importa. Os aluninhos da batuta de Karajan aprenderam a lição perversa: o critério é mostrar em 99% do tempo a figura do maestro.

Estou convencido, como diria Karajan, com certeza pioneiro no uso desta expressão, de que em toda crise lança-se mão de um figurão para contê-la. Maazel na OSB, filhotes de Karajan nos DVDs... e até, daqui a pouco, Ronaldinho Gaúcho de novo na seleção.

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