Ilusões perdidas

Diretor Thomas Ostermeier relaciona peça de Ibsen, escrita no século 19, aos atuais protestos de ruas e às ações do WikiLeaks

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2013 | 02h27

De tempos em tempos, Thomas Ostermeier se vê às voltas com mais um texto de Henrik Ibsen. Além de Um Inimigo do Povo, o diretor alemão já montou ao menos outros quatro títulos do dramaturgo. Versões tão impressionantes que o tornaram reconhecido em toda a Europa por cunhar uma nova maneira de olhar para os dramas do autor. Capazes de transformar o diretor artístico do Teatro Schaubühne, de Berlim, na mais nova "autoridade" em Ibsen.

Só que isso não quer dizer, ele revela, que seja um grande admirador do escritor. "Não gosto especialmente da sua maneira de escrever. Mas acho ótimo não ter com ele uma relação de fã porque isso me dá uma liberdade que eu não teria de outra maneira. Assim, consigo uma distância crítica para fazer a minha própria pesquisa."

Em suas montagens quase nada acontece exatamente da maneira como foi escrito. Em Hedda Gabler, por exemplo, os manuscritos de um livro são queimados pela protagonista na lareira. Já na adaptação que criou, a entediada personagem-título destrói os mesmos originais só que martelando o laptop em que foram escritos. Quando Ostermeier encenou Casa de Bonecas - espetáculo com o qual alcançou seu maior sucesso -, trouxe o relacionamento do casal Nora e Helmer para uma casa de classe média atual, cercada por imagens da televisão, do cinema e da cultura pop.

Encenada em São Paulo graças a uma parceria entre o Sesc e o Instituto Goethe, a recente Um Inimigo do Povo parece guiar-se por tônica semelhante. O diretor transporta a trama de um balneário para uma espécie de cidade "spa". A primeira cena não ocorre mais em um jantar formal, mas durante os ensaios de uma banda de rock. Nem mesmo o final da peça foi preservado. "Na obra original, o médico não aceita subornos, é um herói. Só que nós não vivemos propriamente em um tempo de heróis", argumenta ele, na entrevista que concedeu por telefone, de Berlim.

Promessa de felicidade. Se tanta coisa mudou desde o século 19 e Ostermeier não é propriamente um entusiasta do autor norueguês, por que será que insiste em revisitar suas obras? "Daquela época para cá, a ideia de felicidade privada só cresceu. Aliás, tornou-se a única possibilidade de felicidade no mundo regido pela lógica neoliberal. Nós vivemos em um tempo em que as utopias não existem mais", argumenta o encenador. "O que Ibsen está deixando evidente é que casamento, filhos e uma casa nova não podem entregar toda essa felicidade que nos prometeram."

Não importa propriamente que tipo de material tem em mãos: pode ser uma peça clássica de Frank Wedekind (1864-1918) ou alguma estrutura pós-dramática de Sarah Kane (1971-1999). Tudo que esse encenador conduz ao palco carregará reverberações políticas. "Não porque eu faça um teatro que considere político. Mas porque consigo ver que as ações de uma pessoa não são fruto apenas daquilo que ela tem em seu interior. Cada indivíduo é também parte e resultado de uma sociedade."

Poluição das águas e pressões de governantes contra o interesse público. Atualizações à parte, tais tópicos já seriam mais do que suficientes para aproximar as plateias de hoje de Um Inimigo do Povo. "Engraçado porque a cada país em que apresento essa peça as pessoas vêm me dizer que ela é perfeita para explicar aquilo que estão vivendo. Perfeita para a Grécia, para a Austrália, para o Canadá. Talvez você me diga que é perfeita para o Brasil."

Verdade. Mas o que a torna relevante, ele garante, não são apenas os temas, que poderiam ter sido retirados dos noticiários atuais. "É o fato de tratar da busca da verdade. De se encontrar um espaço possível para a verdade. Essa é uma grande questão do nosso tempo e é o que torna esse enredo tão contemporâneo", considera. "Preste atenção naquilo que (Julian) Assange e (Edward) Snowden estão tentando fazer. O que eles fizeram? Contaram a verdade. E isso foi considerado um crime."

São o funcionamento das instituições democráticas e o conceito de representatividade que entram em cheque quando o diretor da Schaubühne se põe a discorrer sobre seu espetáculo. Em sociedades em que a economia fala mais alto, são ínfimas as chances de a opinião pública se fazer ouvir. "Pensemos nas manifestações populares de hoje. O movimento Occupy em Nova York. Ou nos protestos que aconteceram recentemente na Turquia, no Chile, no Brasil. Todos terminaram em frustração. Por quê? Porque as pessoas não podem fazer mais nada. Porque abdicaram do seu poder de decisão em favor do poder econômico."

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