"Il Trovatore" tem montagem polêmica

No dia 22, estréia no Teatro Municipal de são Paulo uma nova montagem da ópera Il Trovatore, bancada pelos Patronos como parte das homenagens ao compositor Giuseppe Verdi no ano do centenário da sua morte. Quem estiver esperando, no entanto, uma montagem tradicional, uma recriação fiel à atmosfera épica medieval adaptada pelo libretista Salvattore Cammarano a partir de obra de García Gutierrez, pode ir se preparando: o diretor argentino Oscar Figueroa, em entrevista exclusiva à Agência Estado, adianta que - apesar de tudo estar dentro do espírito de Verdi - sua montagem não terá nada de comum.A primeira decisão foi tirar a trama do fim do século 15 e levá-la ao início do século 19, em plena efervescência romântica. O que, por si só, já é suficiente para causar certa polêmica. Isso porque a história de Il Trovatore está, como é de costume em Verdi, bastante associada ao seu contexto histórico, no caso uma guerra civil, a crença na bruxaria, entre outros elementos.Figueroa não discorda dessa idéia, mas ressalta que seus critérios são outros. Em primeiro lugar, para dar a mobilidade cênica que ele acredita ser muito deixada de lado quando se monta Il Trovatore, os figurinos de época - helmos, armaduras - seriam um tanto inadequados.Além disso - e este é, segundo ele, um elemento crucial para que este tipo de montagem possa ser feito -, a música de Verdi não faz referências à música medieval. "Sua música permite este tipo de concepção; ele foi um compositor que soube fazer drama de modo fantástico, mas recriar ambientes de época não era o seu forte"."Da mesma forma, todos os temas que são tratados no libreto têm forte apelo romântico - também houve guerras no século 19, rapto de crianças, crença no sobrenatural, na bruxaria". Além disso, para ele, há temas que destoam do universo medieval. "Se você olha, por exemplo, a explosão e a intensidade dos sentimentos das personagens, elas nada têm a ver com o período em que se passa, oficialmente, a ópera".Novidades - Figueroa ressalta que tudo isso, no entanto, será feito dentro do que está proposto na música de Verdi e no libreto. "Cenicamente não haverá nada muito diferente, mesmo porque esta é uma ópera que não é feita na cidade há muito tempo. E, tudo o que há de diferente, foi pensado não para chamar a atenção apenas, mas sempre com um conceito sólido e um posicionamento intelectual por trás".Uma das cenas que têm tudo para causar polêmica é a primeira da terceira parte da ópera, na qual os soldados exaltam a guerra, e associam a honra à captura do inimigo. "Não é este o tipo de mensagem que quero passar agora. É claro que Verdi escreveu isso dentro de um contexto da liberação italiana, mas mesmo assim é um trecho que faz apologia à guerra!" A solução foi, enquanto a cena se desenrola, colocar ao fundo um grupo de jovens banhando-se, nus, em um pequeno lago. É isso mesmo, nu frontal. Enquanto os soldados exaltam a guerra, os jovens simbolizam a pureza original, que depois, quando se inicia a batalha, desaparece - eles são forçados pelos soldados a se vestir e ir lutar.Polêmicas à parte, Figueroa quer ressaltar, também, um aspecto comumente esquecido sobre Il Trovatore: Manrico, Leonora e Conde de Luna, três das principais personagens, são jovens de não mais que 22 anos. "São personagens ambivalentes e muito jovens, é preciso - mas, para tanto, é necessário esforço dos cantores - recriar um ambiente juvenil, que explique e justifique a trama de amor e ódio na ópera".Em algumas outras cenas, como as árias de Azucena ou do Conde de Luna, Figueroa quer deixar claro aspectos, segundo ele, importantes para a compreensão do libreto. "A dualidade, a explosão em branco-e-preto dos personagens, o papel do fogo, a união entre a música e o libreto, como por exemplo, na aparição da Lua em certos momentos em perfeita consonância com o estado de espírito dos personagens sugerido pela música." São detalhes importantes.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.