Julio Vilela
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Il miglior fabbro

Escrevia com incrível rapidez e humilhante espontaneidade, como se pensasse com os dedos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2021 | 03h00

“Katy” era seu apelido entre os mais antigos amigos de Belo Horizonte e os companheiros da diáspora que, no início dos anos 1960, espalhou um punhado de jovens e talentosos jornalistas e escritores mineiros pelas redações de Rio e São Paulo. “Katy”, de Katy Jurado (1924-2002), atriz mexicana que fez carreira em Hollywood, sempre relegada a papéis secundários. Eram de fato meio sósias um do outro. 

Nunca o chamei de “Katy”, só de Geraldo ou Mayrink. Tinha ainda um Flávio complementando o prenome e um Dutra a separá-los do Mayrink. Daqui a dois anos, chegaria aos 80, mas aos 67 nos abandonou, no auge de sua forma, se é que algum dia ela deixou de estar no auge.

Geraldo foi, sem hipérbole, “o melhor texto” de sua e outras gerações, “il miglior fabbro”, pra usar a eufônica expressão com que Dante distinguiu o trovador Arnaut Daniel e Eliot, pegando carona no bardo florentino, ungiu Ezra Pound. Há dias, outro bamba do texto, Ruy Castro, encerrou uma crônica a respeito de Mayrink com esta observação: “Cada texto de Geraldo é uma aula de como escrever”. Não faz muito tempo, outro expoente da liga e também mineiro de nascença, Humberto Werneck, definiu-o, nestas páginas, como “um empalhador de ouro em pó”.

Por que escrevem tão bem os mineiros? De onde vem esse dom? O ensino básico tradicionalmente sólido, e não apenas no Colégio do Caraça, não explica, por si só, o fenômeno. Continuem investigando.

Exímio datilógrafo, Geraldo escrevia com incrível rapidez e humilhante espontaneidade, “como se pensasse com os dedos”, roía-se de inveja o colega de Veja, Raimundo Pereira. 

Por ser um Midas de pautas áridas e soporíferas, coube a ele tornar cativante a leitura de inúmeras matérias de capa da revista. Uma delas, sobre burocracia (no Brasil e no mundo), fadada ao bocejo se entregue a ouvires menos dotado, deu-lhe uma trabalheira dos diabos. Pela primeira vez, eu o vi preocupado antes de um duelo com a lauda em branco. 

“E aí, Geraldo, como está se saindo?”, perguntei-lhe com o deadline já na linha do horizonte. “Tá duro”, respondeu-me, com aparente calma. “Abri um parágrafo, escrevi ‘no entanto’, pus uma vírgula – está assim faz meia hora.” 

Mas nem aquele duelo ele perdeu. 

Conheci o prodígio no Jornal do Brasil em 1965, ao me integrar à equipe de seu Departamento de Pesquisa. Fiz com ele minha primeira viagem na ponte aérea, ambos jurados do prêmio Saci, criado pelo Estadão; conheci quase todas as mulheres de sua vida; ele foi um dos padrinhos de meu primeiro casamento; juntos, atuamos como assistentes de direção de Mauricio Gomes Leite, num curta sobre e com Otto Maria Carpeaux. 

Fui seu afilhado, parceiro e editado. Editado inclusive na primorosa revista Goodyear, uma espécie de Xangri-Lá em papel cuchê, onde a premier league do jornalismo da época publicou textos memoráveis. Só mesmo Geraldo para me fazer passar vários dias praticamente morando no Jockey Club Brasileiro para retratá-lo numa reportagem que culminava com o domingo do Grande Prêmio.

Quando, no início de 1968, montava a primeira redação de Veja, Mino Carta convidou-me para editar a seção cultural da revista. Como não tinha a menor intenção de me mudar para São Paulo, indiquei o nome de Geraldo, que topou e, como eu previra, se saiu melhor que a encomenda. 

Crítico de cinema de origem, tinha certa birra com cinema japonês (a ponto de preferir Sete Homens e Um Destino a Os Sete Samurais), mas não me lembro de outra idiossincrasia do mesmo quilate. Adorava Godard, motivo, aliás, de sua dispensa da coluna de cinema de O Globo, por ter posto o bonequinho aplaudindo Viver a Vida e dormindo (ou apenas sentado) para Doutor Jivago. Gozador, divertia-se com as galhofas que lhe inspiravam os títulos de alguns filmes em cartaz. Só se referia a Caçada Humana (The Chase), de Arthur Penn, como O Queijo (cheese, em inglês).

Brincar com as palavras era um de seus folguedos preferidos. Em feriados ou fins de semana sob o mesmo teto, trocávamos recados por escrito, num patoá poliglota, não muito difícil de ser decifrado: bobagens do tipo “Went to la plage. Mittagessen com nosotros?”, cuja melhor resposta era ele dar mesmo as caras na praia e almoçar com a gente no final do Leblon.

Não me recordo qual o vocábulo do idioma pátrio que mais apreciava; o que mais lhe feria os ouvidos era “atabalhoado”. 

Faço ideia do horror que lhe provocavam os textos de alguns pernas de pau entregues à sua vigilância. Sorte deles, que sempre encontraram em Geraldo um chefe compreensivo e paciente. Faz parte do seu folclore a proposta com que encerrou uma longa e infrutífera batalha para ensinar uma jovem repórter de Veja a pôr as vírgulas nos lugares certos:

“Vamos fazer uma coisa. Estão aqui duas laudas. Nesta, você escreve o texto. Nesta outra, você põe as vírgulas. E deixa que eu distribuo”.

Geraldo deixou livros publicados, inclusive uma pequena biografia de JK, mas, para se ter a exata dimensão do seu múltiplo talento e de sua contribuição à imprensa contemporânea, aconselho um mergulho no site geraldomayrink.com.br, que o publicitário Gustavo Mayrink montou com o vasto material – reportagens, perfis, entrevistas e críticas – produzido por seu pai em 59 anos de jornalismo. É um curso completo de jornalismo. E o retrato de uma época.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

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