Igreja de Hollywood

Chega às livrarias 'A Prisão da Fé', polêmica investigação sobre a cientologia, religião dos famosos

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h20

Vários incidentes e escândalos marcam a história da Cientologia, religião criada em 1954 pelo escritor de ficção norte-americano L. Ron Hubbard (1911-1986), retratado no filme O Mestre como um sexomaníaco dependente de álcool e louco por dinheiro. Depois do filme, um livro igualmente polêmico chega agora às livrarias brasileiras, A Prisão da Fé - Cientologia, Celebridades e Hollywood, de Lawrence Wright. A longa pesquisa do autor de O Vulto das Torres (premiado com o Pulitzer de não ficção em 2007) foi contestada pela igreja de L. Ron Hubbard, que não aceita os testemunhos de alguns apóstatas como o diretor canadense Paul Haggis (de Crash - No Limite, Oscar de melhor filme em 2006), personagem eleito por Wright como um fiel que foge ao estereótipo do fanático.

Haggis, no primeiro capítulo do livro, tem 21 anos. É mais um entre milhares de garotos ateus vivendo na era da contracultura. Está a caminho de uma loja de discos, em 1975, quando, abordado por um discípulo de Hubbard, pede ao interlocutor cientologista que o leve à igreja. No intervalo entre a conversão e a abjuração de Haggis, Wright conta a história de Hubbard e seus seguidores. Não há dados oficiais, mas seriam 8 milhões de fiéis, dos quais 5 mil em Los Angeles. Wright diz que esse número é superestimado - os cientologistas, segundo o Statiscal Abstract of the United States, não chegam a 30 mil.

O livro acompanha o cineasta Haggis até 2008, quando escrevia mais um roteiro da série James Bond (007 - Quantum of Solace). Wright mostra o ex-fiel, hoje com 60 anos, como um cientologista desiludido, chocado com o preconceito que viu dentro da igreja, sobretudo por ser pai de duas garotas lésbicas - quando escreveu Dianética, a Bíblia dos cientologistas, em 1950, Hubbard reproduziu os preconceitos dominantes na sociedade americana, afastando os gays da sua comunidade religiosa. E John Travolta? O ator, também membro da Igreja, é outra história. A Igreja, hoje, parece mais propensa a fazer vista grossa aos gays e simpatizantes. Com seu marco zero em Los Angeles, ela, afinal, fez uso da fama de celebridades como ele e Tom Cruise para conquistar fiéis, segundo Lawrence Wright, que falou por telefone ao Caderno 2 sobre seu livro.

Na entrevista, Wright conta que a atração exercida pela Cientologia deve-se, antes de tudo, à tática dos cientologistas públicos, que abordam as pessoas em estações de metrô e shoppings, normalmente oferecendo um teste de estresse grátis. Não foi exatamente o que aconteceu com Tom Cruise. Segundo o livro, foi a primeira mulher do ator, Mimi Rogers, que o apresentou à Igreja, em 1986, quando foi alçado ao posto de ator mais popular nos EUA com Top Gun. Já as brigas com a segunda mulher, Nicole Kidman, teriam começado pela discordância da atriz em educar os filhos do casal numa escola que usasse o método Hubbard. Nicole perdeu a luta contra o lobby dos dirigentes da igreja. Quando o casal se mudou para a mansão de Tom Cruise em Pacific Palisades, os dois eram vigiados constantemente.

Hollywood, de acordo com O Poder da Fé, é o centro do império imobiliário da Cientologia. A Igreja é dona de 26 imóveis na região, avaliados em US$ 400 milhões. Recentemente, ainda segundo o livro, ela adquiriu um estúdio de televisão no Sunset Boulevard.

Você foi um adolescente religioso e cresceu como membro ativo da Igreja Metodista de Dallas. Também escreveu um livro chamado Santos e Pecadores. A religião, enfim, sempre esteve presente em seus textos. Você encara a Cientologia como religião?

A religião é uma força poderosa na vida das pessoas, talvez até mais que a política. O que me interessava quando comecei a escrever A Prisão da Fé era mais analisar o processo que leva uma pessoa a crer - e é por isso que o livro começa com Paul Haggis, um cético - do que propriamente investigar uma religião por muitos considerada bizarra. Empenhei meus esforços em torno da pesquisa de um sistema de crença que conduz à fé pessoas inteligentes como Haggis. A cientologia é uma religião que recompensa seus fiéis por seu envolvimento, caso de Tom Cruise e John Travolta, que devem muito à igreja, não por acaso vinculada a Hollywood, a meca das celebridades. Cruise várias vezes testemunhou que sua dislexia foi curada pela Cientologia. Travolta (na igreja desde 1975) encontrou conforto na Cientologia após a morte do filho Jett, a despeito das várias tentativas de se afastar dela.

Em seu livro, Ron Hubbard aparece como um paranoico traumatizado pela guerra e com problemas de visão que, para superar suas deficiências, escreve o best- seller Dianética: o Poder da Mente sobre o Corpo, precursor dos livros de autoajuda. Como você definiria a teoria fundadora da Cientologia? Seria um cruzamento híbrido das teorias freudianas com magia negra?

Hubbard bebeu em várias fontes para criar a receita da Cientologia, de Freud a seu amigo bruxo Aleister Crowley. Ela é um produto de sua época, ou seja, do pós-guerra. Hubbard dizia que a Cientologia apaga a dor de toda uma vida - e usou esse princípio como terapia, instalando sua igreja justamente em Los Angeles, onde poderia contar com famosos para espalhar a seita. Ele teve esse insight brilhante de que, na América, o culto a celebridade é, antes de tudo, religioso.

De volta à magia negra, você menciona Aleister Crowley como uma das grandes influências de Hubbard na criação da Cientologia. Quando o livro foi publicado nos EUA, você recebeu várias ameaças. Foi por relacionar os dois ou por suas denúncias de infiltração da Cientologia em órgãos governamentais, como o FBI?

Crowley foi sem dúvida seu inspirador (como atesta o filho de Hubbard, que tem o mesmo nome do pai e abriu mão dele). Hubbard esteve envolvido com magia negra (a Igreja da Cientologia rejeita essa versão), especialmente por razões sexuais (ele teria passado um período impotente). O fato é que, antes da criação da igreja (Crowley morreu em 1947), eles já não eram mais amigos, pois Hubbard roubou sua namorada. Quanto às ameaças, elas vieram bem antes de o livro ser lançado. Quando a revista The New Yorker publicou há três anos o testemunho de Haggis - que foi corajoso, enfrentando a retaliação da Igreja contra seus desertores - já havia sido ameaçado.

A conclusão final de seu livro é que a Cientologia quer ser vista como um veículo científico para atingir a iluminação espiritual, embora seu livro conduza o leitor a vê-la mais como filosofia ou psicoterapia de massa. O que ela é, afinal, para você?

Talvez as duas coisas. Em Dianética, Hubbard usa justamente esse termo, psicoterapia de massa. O livro foi uma sensação quando lançado, justamente quando os efeitos da guerra ainda se podiam sentir na sociedade americana. Hubbard fazia o elogio da tecnologia e prometia uma escada espiritual para aqueles que o seguissem. E ele, de fato, construiu essa escada, que saiu muito cara para seus devotos.

Como você compara o personagem de Ron Hubbard, retratado no filme O Mestre como um veterano de guerra obcecado por sexo e bebida, com o homem descrito por você em A Prisão da Fé, um xamã contemporâneo e esquizofrênico?

Gostei demais do filme de Paul Anderson. Tem um paralelo interessante com meu livro e até diálogos inteiros dele. Fiquei surpreso, mas é compreensível. Afinal, falamos das mesmas pessoas.

A Cientologia ganha mais força conforme a contracultura avança nos anos 1960 e 1970. Por quê?

Creio que a razão está ligada ao consumo de drogas, que se intensifica nesse período. Tanto que a Igreja da Cientologia usava o slogan: "Depois das drogas, ainda haverá a Cientologia".

O Vulto das Torres e A Prisão da Fé confirmam sua predileção por organizações fechadas. O que você escreve agora?

Um livro sobre as negociações entre o presidente egípcio Anwar al Sadat e o primeiro ministro israelense Menachem Begin em Camp David, em 1978, o primeiro acordo bilateral de paz entre Israel e Egito.

A PRISÃO

DA FÉAutor:

Lawrence Wright.

Tradução: Laura Motta

e Denise

Bottman.

Editora: Cia. das Letras.

(592 págs.,

R$ 54)

LAWRENCE WRIGHT

ESCRITOR

LAWRENCE WRIGHT

JORNALISTA E ESCRITOR

Ganhador do Pulitzer em 2007, o norte-americano, de 66 anos, é autor de seis livros, entre os quais O Vulto das Torres, sobre os atentados de 11 de Setembro. Já escreveu antes sobre religião no livro Santos e Pecadores, no qual fala até de seitas satânicas.

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