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Ignorância em expansão

Alguém me pergunta algo que não sei - e olha aí minha vasta ignorância se ampliando

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2016 | 02h00

Várias semanas depois, continuo sem saber o nome da misturinha que se faz com o último gole de café e o farelo de pão caído no pratinho. Quem me trouxe a transcendental questão, mote da crônica Cultura em Migalhas, publicada aqui em 22 de novembro, foi o amigo Sérgio Fantini, escritor de prosa muito menos chã, ao evocar o hábito que tinha uma de suas tias de fazer a tal mistura, no lanche da noite ou no café da manhã, lá em Sabará, Minas Gerais. Nome da coisa? Evaporou, disse ele.

Não creio que a intenção do Sérgio tenha sido essa, mas o fato é que sua doce (em mais de um sentido) reminiscência de família virou nova minhoca entre as muitas que habitam minha superpovoada massa encefálica. Parei tudo para encarar o relevante desafio. Podiam esperar um pouco mais os três volumes da História Social da Literatura e da Arte, do Arnold Hauser, catatau que desde a adolescência tento desbastar, numa empreitada comparável à de quem se dispusesse a subir com as unhas por uma parede de ladrilhos ensaboada. Com o risco de você maliciar, admito que jamais logrei ir além do Paleolítico.

Mas antes que me perca uma vez mais: com prazo para desovar a crônica, em dado momento desisti da frenética folheação de dicionários, e atirei à roda o enigma dos restinhos de café e pão da tia sabarense do Fantini. Além de xícara e pratinho, lavei as mãos. E, como à beira de um pesqueiro, assisti à correria dos peixes em direção ao anzol iscado com a tal minhoca. Nomes foram pingando, saltitantes, em meu puçá de pescador vocabular. 

Houve quem sacasse “açorda”, palavra que, numa de suas acepções, informa o Houaiss, designa “espécie de papa de miolo de pão ensopado em água fervente ou em caldo, temperada com azeite e alho, e que geralmente acompanha peixes e frutos do mar”. Delícia em Portugal, aqui nem tanto, pois em sentido figurado é para nós termo pejorativo. 

A Beatriz propôs denominação por ela inventada, “mexido mineiro”, enquanto a Maci informava que na sua família a mistura é tratada de “papinha”. De Brasília, o Danilo pensou, pensou - e jogou a toalha de mesa. O que mais se aproximaria da mistureba fantinal, segundo ele, é o café coado na hora com rapadura do restaurante da Dona Lucinha, em Belo Horizonte. Ficou de conseguir o nome da beberagem, e até agora, nada. 

Em compensação, apresentou-me o “lobrobô”, palavra que, se dicionarizada estivesse, faria vizinhança, no Houaiss, com o adjetivo “lôbrego” (“em que há pouca ou nenhuma claridade; escuro, sombrio; de aspecto soturno; funesto, lúgubre; que infunde pavor; tétrico, assustador”). Nem por isso se aconselha enjeitar o lobrobô, que o Danilo descreve como sendo, na sua Mariana natal, o indivorciável casamento do angu com as folhas do ora-pro-nóbis.

Houve também, entre os leitores, quem não só passasse ao largo de minha ignorância exposta, como as piores fraturas, como viesse contribuir para torná-la ainda mais abrangente. Como é mesmo que se chama, provocou um espírito de porco, aquele recurso de que alguns oradores lançam mão quando sobrevém um branco? Aquela pausa que parece carregada de alta ruminação, mas que na verdade disfarça a azáfama dos neurônios na procura do verbo que se escondeu. Vou ter que consultar o mestre da oratória Reinaldo Polito, que não sem boas razões chamei de O Papa do Papo. Sabe tudo - e, quando não sabe, sabe o que fazer: ele me contou que certa vez, engasgado por um branco, não viu saída senão simular um desmaio.

Mas voltemos à papinha sabarense. Salvo melhor juízo, como aprendi dizer no meu esvanecido curso de direito, a hipótese mais consistente que veio em meus anzóis onomásticos é o substantivo feminino “entrita”, com raízes latinas que remetem a “argamassa, sopa, caldo, moído, esmigalhado”. Não me apraz comer uma argamassa - mas não é, no fundo (da xícara, inclusive), o que faz a tia do Fantini para arrematar o seu café?

Mais de um leitor levantou a lebre da “entrita” - e um deles, o Miguel Matos, foi além: tendo lido Cultura em Migalhas, despachou de Ribeirão Preto 16 livrinhos por ele editados no capricho, cada um contendo citações bem peneiradas de mestres como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Eça de Queirós, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Olavo Bilac e o Padre Antônio Vieira. A editora chama-se, veja você, Migalhas, denominação que aproveita as três primeiras letras do prenome de seu criador, e que vem a ser a mesma daquilo que ele apresenta como sendo “um despretensioso jornalzinho jurídico” na internet. 

Despretensioso? Não acredite: apoiado por centenas de escritórios de advocacia e tocado numa empresa com 50 funcionários, o informativo Migalhas já contabiliza mais de 4 mil edições e chega todos os dias a 550 mil leitores - os “migalheiros”, no dizer do Miguel. “Vivo de migalhas”, contou-me ele numa carta cuja pegada e graça põem à mostra um belo talento de escritor. Vai ver que só eu, em minha abrangente ignorância, não sabia disso - como continuo não sabendo, insisto, o nome de certa misturinha, etc., etc., etc. 

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