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Ignorância como virtude

Pela primeira vez, uma enorme população tem acesso a muito conhecimento, mas resiste a ele

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 Março 2017 | 08h25

O que acontece quando adultos informados decidem jogar fora conhecimento acumulado e testado? Que tal este número como exemplo: 300 mil vidas. É o cálculo feito pela Universidade Harvard do custo de uma decisão do ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki. Na década de 1990, o herdeiro político e protegido de Nelson Mandela aderiu a um grupo de charlatães dos EUA que foram contra a comunidade médica internacional e disseram que a aids não era causada pelo vírus HIV. Mbeki recusou o uso de drogas antivirais para combater a epidemia de aids na África do Sul durante uma década, alegando que a doença era causada por outros fatores, como subnutrição. Além dos 300 mil mortos, 35 mil bebês nasceram soropositivos. 

Este episódio trágico abre o novo livro de Tom Nichols, A Morte da Especialidade: A Campanha Contra o Conhecimento Estabelecido. Nichols é um professor universitário, especialista em armas nucleares e relações internacionais.

É a primeira vez, na história da humanidade, que uma população tão grande tem acesso a tanto conhecimento, enquanto resiste vigorosamente a aprender com ele. Nichols diz que o fenômeno vai muito além do ceticismo, condição necessária para o progresso científico. Ele teme que estamos atravessando “a morte do ideal da perícia, um colapso, alimentado a Google, Wikipédia e blogs, de qualquer divisão entre profissionais e leigos, estudantes e professores, sabedores e especuladores - em outras palavras, aqueles que conquistaram algo numa área e aqueles que nada fizeram”.

A ignorância apenas não explica este estado de coisas. Muitas figuras públicas que combatem a ciência são bem-sucedidas, como Oprah Winfrey, que promoveu a campanha da ex-coelhinha da Playboy Jenny McCarthy contra vacinação infantil, sob a falsa alegação de que causa autismo, ou a atriz Gwyneth Paltrow dispensando em seu blog conselhos de alimentação e saúde que causam horror a médicos. O fenômeno, escreve Nichols, é mais danoso do que a ignorância, é uma arrogância injustificada em uma cultura de narcisismo que resiste a qualquer forma de desigualdade em mérito. O autor diz que, apesar de a sociedade funcionar com pilotos e não professores de ioga no controle de aviões, a dependência de técnicos não inclui mais diálogo entre quem conhece assuntos em profundidade e a comunidade maior. Selecionamos a informação que nos interessa, como quando nos apegamos a pseudonovidades como “comer chocolate ajuda a emagrecer”.

Embora a Internet tenha acelerado o impulso de anti-intelectualismo que é parte da cultura norte-americana, Nichols alerta, o ataque tem um pedigree mais longo, no uso da TV, do rádio e da imprensa de papel. O autor lembra também que há progresso no fato de o conhecimento não estar mais confinado a catedrais de saber e a picaretagem poder ser melhor detectada a longa distância. Mas, Nichols pergunta, por que o acesso de uma população maior à educação universal está gerando o oposto do respeito pelo conhecimento? Ser educado, afinal, é nunca parar de aprender.

Um capítulo do livro é dedicado ao custo dos erros graves feitos por especialistas, seja a guerra do Vietnã ou a talidomida. O próprio Nichols expõe sua falibilidade, como veterano sovietólogo e fluente em russo. No começo do ano 2000, ele escreveu que a emergência do então desconhecido burocrata Vladimir Putin seria um passo para aprimorar a democracia na Rússia.

Quem se lembra quando o ovo se tornou um vilão da dieta nos anos 1970? O fato de que os médicos estavam errados quando sugeriram que comer muito ovo resultava em enfarte não significa que os engenheiros são mais aptos a diagnosticar um câncer.

Nichols escreve sobre a responsabilidade do jornalismo de distinguir fato de ficção numa era de ruptura e desespero por cliques. Lembra que é importante não confundir o especialista com o político e argumenta que o desprezo pelo perito erode a democracia. Quem usa a idade da informação apenas para entretenimento e confirmação de preconceitos não tem recursos para desafiar líderes demagogos. Nichols cobra dos especialistas maior engajamento público e menos conversa entre eles mesmos.

Não posso pensar numa discussão mais oportuna, numa era de Brexit, emergência do populismo e de um certo bilionário da 5.ª Avenida. 

 

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