Ignácio de Loyola lança novo romance

Depois de sete anos, Ignácio deLoyola Brandão está de volta ao romance. O escritor e cronistalança nesta terça-feira, em São Paulo, O Anônimo Célebre, suaprimeira obra do gênero desde O Anjo do Adeus, de 1995. "Navego melhor no romance, não me sinto um grandecontista", afirma Loyola. "Acho que, com o romance, saio maisdo real, fico dentro desse outro universo." O colunista dojornal O Estado de S. Paulo diz que gosta de históriaslongas. "Talvez porque gostasse de filmes longos", explica, elembra que os primeiros livros que o marcaram foram romances:Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e Moby Dick, de HermanMelville. O Anônimo Célebre é um romance do nosso tempo, dotempo em que "aparecer" na TV, nas revistas, nas colunassociais - se tornou objetivo de vida. "Acho que é uma doença doséculo, assim como já o foram a sífilis e a tuberculose",acredita o autor. "Digo isso e escrevo sem fazer um julgamentomoral", complementa. "O que as pessoas não percebem é que abusca dessa fama provoca infelicidade, porque a felicidade nãovem apenas porque sua cara está estampada no jornal." Loyola afirma que mantém com sua criatura, o narrador deO Anônimo Célebre, uma certa relação de compaixão. "Ele temesse sonho, um sonho desvirtuado, sem limites, sem parâmetros;ele é o homem sem qualidades de nosso tempo." Esse narradorapenas quer ser famoso, mas encontra um obstáculo: há outro emseu caminho, por demais parecido com ele, também não nomeado nolivro e que recebe a alcunha de AP, ou ator principal. SegundoLoyola, a idéia inicial dessa história surgiu durante uma viagemà Nicarágua, no início dos anos 1980, quando, numa parada, viuum homem que, através de um vidro, encarou outro que se pareciaassombrosamente com ele. Os dois perceberam que eram sósias,espantaram-se, mas não chegaram a conversar. "Quis juntar duashistórias: a do anonimato e a da fama." A nova história de Loyola lembra uma de suas primeiras emelhores criações: Bebel, a menina que dá nome ao romanceBebel Que a Cidade Comeu, de 1968. "Bebel era o embriãodeste homem; ela não queria ser anônima, mas numa proporçãomenor. A mídia não era tão avassaladora, não era esse trator quehoje leva as pessoas a ter essa estranha utopia." Por isso, Loyola brinca que fez um reality-romance, paramostrar a tristeza "daqueles que estão lá": "Que talento têmo Kléber Bam-Bam, o Rodrigo, a Tiazinha? Eles não cantam, nãodançam, não escrevem; quando você pega neles, eles esvaziam." Não deixa de ser curioso, no entanto, o fato de Loyolatambém poder ser considerado "celebridade" (a orelha do livro,aliás, é assinada pelo escritor e professor Deonísio da Silva,que mantém uma coluna na revista Caras).Recentemente, porexemplo, pôde ser visto dando entrevista sobre o romance nacoluna social televisiva de Amaury Jr. "Se você faz parte dessemundo com olhar crítico, é legal, passa a ter tambémdivertimento", diz. "Não me deixo engolir; vou às festas peloprazer", complementa ele, que dirige a Vogue, revistaespecializada em moda. No sábado passado, a Vogue organizou uma festa. Nomeio da semana, os funcionários da revista já evitavam atenderao telefone, pelo número de pessoas ligando, tentando conseguirconvite. Essa experiência de Loyola percorre todo o livro, mas ébem expressa nessa reclamação do "anônimo célebre" a seuassessor de mailings: "Tantas festas! As revistas noticiam enão estou recebendo convites. O que está acontecendo? Como voufreqüentar tudo?" "Uma camada da sociedade vive assim, tem umsonho que, se não realizado, transforma-se numa neura." Onarrador não tem a vida muito clara: mas há indícios de que écasado e tem uma amante menor de idade - ou isso faz parte dabiografia inventada que o autor está, o tempo todo, construindopara si? Uma das preocupações constantes do personagem é"resgatar anônimos": quem foram os escultores dos cavalos deVeneza? Quem eram as meninas que cercavam Grande Otelo e oescritor Luís Martins numa foto dos anos 1940? Quem era ojogador desconhecido da pelada em que Ipanema e Copacabana seenfrentaram e que tinha, entre os "atletas", Di Cavalcanti,Rubem Braga, Fernando Sabino? Para escrever O Anônimo Célebre, Loyola retomou oprocesso usado em Zero, seu mais conhecido romance. Foiorganizando pastas com anotações e recortes de revistas ejornais. "No fundo, essa história vem também de algo que noteinos tempos de escola: havia os garotos mais populares, ou erammais divertidos ou mais bem-vestidos ou jogavam melhor; eu nãoqueria ser anônimo, mas não lutei para não sê-lo; certas coisas,o destino escolhe." O escritor lembra do aneurisma que foi diagnosticado emseu cérebro em 1986 (tema da narrativa de seu livro VeiaBailarina) e se pergunta: "Por que eu continuo aqui e oRoberto Drummond, que não tinha nada, morre?" Roberto Drummond,um fanático por futebol e autor de Hilda Furacão, morreueste ano, de ataque cardíaco, durante a Copa do Mundo. Drummond, aliás, autor também de Sangue de Coca-Cola é considerado o fundador, nos anos 1970, da literatura popbrasileira. O livro de Loyola não é, também, pop? "Pode ser, umpersonagem pop; não estou preocupado com cronologia ourealidade; talvez eu também tenha fundado um gênero, aautobiografia pensada, já que tudo o que o personagem estáconstruindo, seu manual para aparecer, não está sendo escrito,só pensado." "Quis contar a tragédia de nosso tempo, mas recorri aohumor; espero que esse livro seja bem lido, porque, senão,tchau. Se for bem lido, ele pode acontecer." E o que é ler bem,para o autor? "Quem procurar coerência e racionalidade não vaiachar; fiz uma literatura da perplexidade."Serviço - O Anônimo Célebre. De Ignácio de Loyola Brandão.Global Editora, 384 páginas, R$ 39,00. Terça, a partir das18 horas. Livraria Cultura/Conjunto Nacional. Avenida Paulista,2.073, tel. 3285-4033

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