Ignácio de Loyola Brandão lança seu Amarcord na Flip

Em 1953 o escritor Ignácio de Loyola Brandão flanava pelas ruas de Araraquara sonhando com a cidade grande. Formava com os amigos uma turma muito parecida com a de um filme rodado naquele ano por Fellini, "Os Boas-Vidas" (I Vitelloni), justamente um quinteto de rapazes de Rimini entediados com a vida pacata da cidade litorânea italiana. Fellini voltava, enfim, ao lugar onde nascera para ?liberar fantasmas arquivados?, mesmo motivo que levou Loyola a aceitar o convite da editora Jaboticaba para escrever seu novo romance, "A Altura e a Largura do Nada". O livro será lançado na 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty, onde o autor participa, na sexta, às 11h45, de uma mesa-redonda com Wilson Bueno e Miguel Sanches Neto.Como Moraldo, o alter ego de Fellini em "Os Boas-Vidas", o escritor Ignácio de Loyola Brandão partiu em silêncio num trem, numa manhã de 1957, em direção a uma metrópole que o assustava e seduzia, São Paulo. Talvez não pensasse, como Moraldo, nas pessoas que havia deixado para trás, mas certamente elas voltariam para assombrar seu futuro. Afinal, ninguém se livra de ?fantasmas arquivados?. O romance fala de alguns personagens desse mundo provinciano do qual o escritor parecia definitivamente apartado: um padre que enlouqueceu após assistir ao strip-tease de Rita Hayworth em "Gilda", um outro que media o tempo com uma fita métrica de alfaiate e ainda um terceiro que, antecipando a obsessão do pintor francês Roman Opalka, queria escrever o maior número do mundo (Opalka pinta números desde 1965; passou, depois do 1 milhão, a ?visualizar? o tempo irreversível com outros instrumentos)."A Altura e a Largura do Nada" poderia ser classificado de romance autobiográfico, mas há um bocado de coisas inventadas para desprezar o neologismo autoficção. Ao lado de personagens reais nascidas na cidade do interior de São Paulo - o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, a ex-primeira dama Ruth Cardoso -, circulam outros recriados por Loyola. A própria história do padre, que se autoflagela por causa da sensual Gilda, foi reconstituída (no livro, ele acaba internado numa instituição psiquiátrica; na vida real, ele desaparece de Araraquara).Não contente em interferir no mundo concreto, o cronista do Estado conseguiu tornar real até aquilo que era ficção. No livro, que começa justamente em 1953, ano de "Os Boas-Vidas", o homem dos números, Lucas Cranach, prepara-se para escrever o primeiro deles num livro de atas, momento que teria sido registrado pelo pintor (real) Ernesto Lia. Acontece que nenhum nativo de Araraquara conseguiu, até hoje, chegar perto do tal quadro ("Luar Diurno sobre o Vazio"), ao lado do qual o filósofo Sartre teria sido fotografado em sua passagem pela cidade há 46 anos. A tal tela virou mito na cidade sem ninguém ter visto uma única pincelada. Mas verá. O escritor anuncia que, finalmente, convenceu Ernesto a pintá-la.No livro, o óleo que registra Lucas Cranach é a confirmação do ato banal de um homem que dedicou sua vida a uma tarefa inútil e descomunal. Todos querem salvar o mundo, menos os que foram esquecidos por ele, como os anônimos descartáveis da província. Num tempo de anti-heróis globalizados, Lucas vem na contramão e atropela a realidade. ?Procurei fazer um livro sem nostalgia, embora um pouco melancólico?, analisa seu autor, preparado para enfrentar a legião de cineastas interessados em seu Amarcord. Nele, histórias boas não faltam.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.