Renata Dillon
Renata Dillon

Idosas são tema de espetáculo de Maitê

Em coautoria com Fernando Duarte, atriz exibe lado bom da terceira idade

MURILO BOMFIM, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h13

Quando está em uma peça de teatro, em frente a um grande público, e não consegue se emocionar, Maitê Proença sabe o que fazer para parecer emocionada. Com 33 anos de carreira, aprendeu a dominar as soluções da encenação. "Eu estava fazendo coisas que, na verdade, me protegiam. Mas eu não queria mais fazer isso. Queria algo que mexesse comigo, por isso fui para a escrita", diz. Escolheu contar a história de Terezinha, idosa que, ao ter passado por todas as idades, parece resolver os problemas da vida.

Ao lado de Valdina (interpretada por Clarisse Derzié Luz), a personagem compõe a dupla de velhinhas de À Beira do Abismo me Cresceram Asas, que estreia amanhã no Teatro Faap.

A ideia de abordar a terceira idade - aqui vista como melhor idade - partiu do texto que o dramaturgo Fernando Duarte enviou para Maitê depois de assisti-la em As Meninas, em 2010. "O espetáculo mostrava crianças falando sobre assuntos de adultos. Achei que ela seria uma boa parceira para tratar, também, da terceira idade."

Em visita a uma tia que vive em um asilo, Duarte conheceu 60 idosos. Saiu de lá com a ideia de produzir algo que abarcasse as histórias de vida que ouviu. Voltou mais vezes para entrevistar os 20 velhinhos que formaram a base do texto.

Ocupada com gravações, Maitê só foi olhar o enredo seis meses depois de recebê-lo e se interessou. A partir daí, iniciou-se uma coautoria. "Tirei as lamúrias e mantive as delícias da velhice. Aquelas pessoas têm todas as idades, é o melhor ponto de vista para se falar do que quiser e com autoridade", diz.

Valdina e Terezinha são complementares - enquanto a primeira é exacerbadamente feliz, a outra tem um temperamento mais fechado. Ao longo do enredo, descobre-se que as personalidades não são tão definidas. Terezinha se mostra tranquila e bem resolvida, enquanto Valdina usa a alegria em excesso para esconder um segredo. Embora diferentes, há uma coisa em comum além da velhice: ambas têm apenas uma à outra.

Além de participar da elaboração do texto e de atuar, Maitê tem sua primeira experiência na direção teatral. A ideia original era limitar-se à coautoria, mas acabou sendo obrigada a subir ao palco. "Os patrocinadores me perguntavam 'Por que você não faz a peça? Acha ruim?' e eu acabei atuando para conseguir o dinheiro", conta. O diretor que ela havia escolhido não pôde continuar no projeto e ela assumiu as rédeas, que divide com Clarice Niskier.

Um dos grandes cuidados das diretoras era evitar que as idosas se transformassem em caricaturas. "Ninguém quer ver aquela velhinha com voz de velhinha e corcunda", diz Maitê. "Há algo que fazemos em cena que remete à velhice, mas nos policiamos quando há exagero. Se fosse assim, chamaríamos a Laura Cardoso."

Mesmo que de forma inconsciente, Maitê teve duas inspirações para a personagem: a avó Laura, morta aos 103 anos, e os velhinhos que viu nos tempos de ensaio em Copacabana, bairro onde vive. "Eu não tinha percebido isso, mas, quando pensei em Terezinha, pedi um cabelo cheio e ondulado, como era o de minha avó", lembra.

Duplo lançamento. A peça de Maitê foi gerada de forma concomitante com o livro É Duro Ser Cabra na Etiópia (Editora Agir), lançado no Rio em maio e com noite de autógrafos marcada para o dia 1.º de julho em São Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

A antologia que reúne mais de 160 textos foi montada de maneira colaborativa: por meio de um site, Maitê pediu que internautas enviassem escritos que fossem engraçados e tivessem até 1.500 caracteres.

"O nome veio de uma conversa com meu irmão. Falávamos de um etíope que constatou que havia café nas fezes de algumas cabras que estavam mais animadas. Pensei 'elas não podem nem fazer cocô mais. É duro ser cabra na Etiópia!'", diz.

Apesar de ser um projeto diferente da peça, Maitê conta que os trabalhos têm alguns assuntos em comum. "Eram pensamentos que rondavam minha cabeça."

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