'Idomeneo' estreia no Teatro Municipal

Produção tem direção de Regina Galdino e apresenta a história do rei de Creta para os dias atuais

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2012 | 03h11

"Só no caso de Mozart é possível falar de um compositor maduro aos 25 anos, mas trata-se disso mesmo: aqui, já o vemos em direção às grandes obras do final de sua carreira", diz o maestro chileno Rodolfo Fischer sobre Idomeneo, ópera que ele rege a partir de hoje no Teatro Municipal. Em versão de concerto cênico, a produção terá direção de Regina Galdino, que trouxe a história do rei de Creta para os dias atuais. No elenco, estão cantores brasileiros como Miguel Geraldi, Luisa Francesconi, Gabriella Pace, Claudia Riccitelli e Marcos Liesenberg.

Para Fischer, a compreensão dos avanços da música de Mozart passa pelo contexto de sua vida. "Além da excelente educação que recebeu do pai, ele viajou muito, conheceu todos os estilos e adquiriu uma paleta de cores enorme", diz. "É por isso que não devemos estranhar sua decisão de, ao receber uma encomenda da Baviera, escrever uma grande ópera séria", completa.

Segundo Fischer, Idomeneo traz "revoluções" importantes. "A primeira é a enorme quantidade de recitativos acompanhados pela orquestra, o que ressalta o aspecto teatral. Isso é fundamental para Mozart e mostra que ele foi influenciado pela ópera francesa. De alguma forma, a todo momento percebemos que ele dialoga com Iphigenie en Tauride, de Gluck, a peça mais popular de sua época. Em segundo lugar, chama a atenção a dificuldade técnica de algumas das passagens escritas por ele. Os instrumentos ganham tratamento de solista. A orquestra que estreou a obra foi a de Mannheim, na época o grande conjunto da Alemanha, equivalente ao que seria hoje a Filarmônica de Berlim. Ou seja, Mozart sabia que tinha à sua disposição grandes instrumentistas, os melhores e podia se sentir à vontade."

Outro aspecto ressaltado pelo maestro é o fato de que Mozart, mais tarde, se dedicaria quase exclusivamente à comédia - ou a tragicomédias, como é o caso de Don Giovanni. "Isso faz do Idomeneo uma obra importante por revelar uma faceta quase cerimonial na música, que perpassa toda a ópera. Na Flauta Mágica, por exemplo, ele retoma esse estilo, mas apenas em alguns instantes."

Na busca por atualizar a história, a diretora Regina Galdino procurou estabelecer paralelos. Durante a volta a Creta, o barco de Idomeneo enfrenta uma forte tempestade e ele faz uma promessa aos deuses: sacrificará a primeira pessoa que encontrar em terra caso escape da fúria do mar. No desembarque, porém, ele é recebido por seu filho. A diretora se pergunta, então, quem seria hoje o implacável deus Netuno, que obriga um governante a sacrificar seu filho e seu povo? Para ela, a resposta está no "Deus Mercado" - e nessa leitura colabora o fato de que a Grécia atual se encontra em meio a uma crise econômica que, segundo ela, tem levado seu povo a lutar para "não perder direitos adquiridos, criticando o fato de que os prejuízos são divididos, mas os lucros não".

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