Identidades musiciais

Em entrevista exclusiva, Nathalie Stutzmann fala sobre o trabalho como artista residente da Osesp, cantando e regendo

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h12

O professor era o "pior tipo de machão que você pode imaginar", mesmo na França do início dos anos 80. E não deixou dúvidas quanto a suas opiniões. Ela poderia participar das aulas de regência, mas não empunharia a batuta. Estar à frente de uma orquestra era coisa de homem. Simples assim. E ali a jovem Nathalie soube que aquele era um sonho que precisaria ser colocado em espera. Por sorte, ela tinha outros. E se tornou uma das mais celebradas cantoras líricas da sua geração. Até que, quase 30 anos depois, em 2009, regeu uma orquestra pela primeira vez, um grupo criado por ela, chamado Orfeu 55. "Seiji Ozawa e Simon Rattle, me disseram: está na hora. E se você ouve isso de dois dos maiores maestros do mundo, fica realmente tentada a acreditar."

Nathalie Stutzmann desembarca no fim de semana em São Paulo, trazendo na mala seus dois talentos. Ao longo deste ano, será a artista residente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Isso significa que vai participar de quatro programas distintos durante a temporada. De quinta a sábado da semana que vem, será a solista em um programa regido por Sir Richard Armstrong e dedicado a obras de Richard Wagner (leia ao lado); e, no dia 16, faz recital com autores franceses e alemães, ao lado da pianista Inger Södergren. Ela volta a São Paulo em novembro, no dia 17, para um programa dedicado a Vivaldi, com o Quarteto da Osesp; e, na semana seguinte, rege o Réquiem de Mozart à frente da orquestra.

Cantora, maestrina - e não podemos esquecer que seu início na música se deu com o piano e o fagote, ainda em Nantes, para onde se mudou ao deixar a Suresnes, onde nasceu em 1965. "De certa forma, não consigo separar nada disso", ela explica, em entrevista exclusiva ao Estado. "E é o que acabou me interessando no convite feito pela Osesp. Em cada concerto, há uma faceta de meu trabalho, você está certo. Mas há um sentido mais amplo que une todos os programas e, ao identificar isso, você se dá conta de que pode haver uma perspectiva diferente no fazer musical. Minha trajetória tem sido dedicada a pensar a arte como uma aventura humana. Isso tudo pode parecer vago, mas não, é algo bem concreto."

Concreta é a reputação que Nathalie conquistou como cantora. Um bom indício é a agenda anterior à sua vinda ao Brasil. No dia em que conversou com o Estado, durante a Páscoa, ela se preparava para se apresentar em A Flauta Mágica, no Festival de Baden Baden, na Alemanha. Foi um dos eventos mais concorrido da agenda europeia deste ano, pois marcou a estreia da Filarmônica de Berlim e do maestro Simon Rattle na programação. E, para tanto, um elenco de estrelas foi montado - com Nathalie encabeçando a lista.

"Foi tudo muito divertido. E é bom chegar a um ponto da carreira em que esse pode ser um dos critérios para você dizer sim ou não para um convite. Quando você começa a cantar, precisa aceitar basicamente tudo o que lhe oferecem, claro, tomando cuidado apenas para não fazer bobagens que possam machucar sua voz. Essa liberdade é ótima."

E liberdade foi o que mais influenciou na hora de ela decidir criar uma orquestra própria para iniciar seu trabalho como regente. "Como cantor, você depende sempre dos convites que recebe e, uma vez no palco, existe a eterna negociação com o maestro, você acaba precisando ceder em algumas coisas. Com o Orfeo 55, não. Eu faço o que me dá na cabeça. E em especial posso misturar a cantora com a maestrina. Ouvi tanto de pessoas: como assim reger e cantar ao mesmo tempo? Mas deu certo, foi algo natural. Em alguma medida, viver é ter que lutar contra descrenças, contra a aposta de que algo não é possível. E por isso é tão libertador para mim reger." E em que medida a cantora dialoga com a maestrina, e vice-versa? "O que posso dizer é que, se a cantora fizer alguma bobagem, não pode culpar a regente. E vice-versa."

Chato. A escolha do repertório de Nathalie é pautada de maneira simples, ela explica. Basicamente, canta ou rege o que ama. E o amor, nesse momento, é dedicado ao repertório germânico - Bach, Mozart, Beethoven, Mendelssohn, Brahms, Wagner. "Eu me sinto, de alguma forma que é difícil definir, ligada a essa música. A sonoridade desses autores soa natural para mim. E tanto Seiji como Simon parecem concordar. Mas há o repertório francês, que me atrai muito também. Ravel, Bizet." Como cantora, ela se dedicou pouco à ópera, mas a "falta" deve ser compensada pela maestrina. "Em breve farei O Elixir do Amor, de Donizetti, Carmen, de Bizet, e vários títulos de Mozart. A ideia, basicamente, é recusar a acomodação. Como cantora, sempre fui curiosa. E o mesmo vale agora."

Se há semelhanças entre as duas atividades, há também diferenças. Foi só se tornar regente e comandar uma orquestra para que as pessoas começassem a perguntar a ela sobre o futuro da música clássica e o papel que um maestro precisa ter hoje em dia na busca por novas plateias e justificativas para o fazer musical. "Eu preciso ser honesta e dizer que isso tudo soa muito chato às vezes", ela diz. "É natural que se espere um carisma maior do músico, uma capacidade de se comunicar com as pessoas, de atingi-las de uma forma mais forte. Mas esquecemos que isso se faz sobre o palco, quando estamos fazendo música. As obras que interpretamos são tão incríveis, há tanto que elas nos dizem que, fora do palco, não vejo o que podemos falar que seja mais veemente ou claro do que isso."

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