Identidade e memória

Em A Câmera de Pandora, o catalão Joan Fontcuberta reflete sobre as mudanças produzidas pelo registro digital

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h10

Não são poucos os pensadores da fotografia que se debruçam sobre as transformações que ela sofreu depois do advento da linguagem digital. Um dos pesquisadores que apresentam reflexões sobre o assunto é o catalão Joan Fontcuberta, que acaba de receber o prêmio internacional de fotografia da fundação Hasselblad, da Suécia, em reconhecimento à sua carreira, e de quem a editora GG Brasil lança o seu segundo volume por aqui. É A Câmera de Pandora, sequência de seu livro O Beijo de Judas: Fotografia e Verdade, que saiu na Espanha em 1996 e no Brasil em 2010.

Nas duas obras, o autor reflete sobre a sua arte, a produção e recepção em uma época que ele define como de "cultura visual". Fontcuberta, fotógrafo, crítico e professor universitário - além de atuar nas áreas de jornalismo e publicidade -, transita muito bem pelo saber fotográfico e tem um olhar aguçado sobre a maneira como percebemos o mundo atual: "Sentimos o mundo contemporâneo como uma sobreposição de simulacros", escreve. Trata-se de uma cultura em que a experiência vivida é substituída pela imagem. Do mundo das certezas analógicas, passamos para o das incertezas digitais.

Neste panorama, com quase uma década e meia de distância entre os dois volumes, o artista, por intermédio de artigos sobre literatura, cinema e, obviamente, fotografia, pensa e repensa o papel desta arte. No primeiro livro, ele alia a credibilidade popular na fotografia como portadora da ética da visão, com o Beijo de Judas, ou seja, traição, visto que imagens são sempre representações de alguma coisa e carregam em si algo de ficcional. Para tanto, ele se refere à máxima do fotógrafo norte-americano Lewis Hine (1874-1940) de que "a fotografia não mente, mas mentirosos fotografam".

Já no segundo volume, ele fala das transformações que o registro digital trouxe para o nosso mundo e discute se devemos falar em transição ou ruptura da filosofia que acompanha a fotografia. Para isso, o artista nascido em Barcelona (1955), nos remete ao mito grego da Caixa de Pandora, que, aberta, libertou todas as desgraças humanas, segundo uma versão, ou todos os bens, segundo outra, deixando trancafiada somente a esperança: "Como câmera de Pandora, a tecnologia digital proporciona calamidade para alguns e libertação para outros".

Cada sociedade, ou momento histórico, escolhe uma forma de representação ou de como gostaria de ser vista. Micro-histórias que se desenvolvem com a percepção que as imagens exercem no nosso modo de compreender e de nos apropriarmos do mundo.

Claro está que, numa sociedade em que a cultura visual impera, esta representação também se modifica: "Assistimos a um processo irrefreável de desmaterialização. A superfície em que a fotografia analógica se inscrevia era o papel ou material equivalente, e por isso ocupava um lugar, fosse um álbum, uma gaveta ou uma moldura. Em compensação, a superfície de inscrição do registro digital é a tela, a impressão da imagem num suporte físico já não é imprescindível para que a imagem exista". Ou seja, a fotografia digital está em toda parte e em lugar nenhum, sem território.

Nesta linha, Joan Fontcuberta procura nos chamar a atenção e questionar como será formada e criada nossa memória habituada ao papel documental do analógico. A fotografia polissêmica e múltipla e incessante se torna cada vez mais aparência e menos evidência. Tudo se fotografa, tudo se mostra, o instante é o grande protagonista.

Com muita leveza, em seus artigos ele avalia a história da fotografia analógica e o possível futuro do digital. Ou, como escreve o fotógrafo brasileiro Juan Esteves no prefácio do livro: "Ele discute, com muita pertinência, a identidade contemporânea, promovendo uma busca por tudo o que sai desta verdadeira câmera de Pandora imagética que é a fotografia. Quer descobrir e compartilhar uma memória própria, mesmo que esta continue mudando vertiginosamente, mesmo que esta só exista através de uma nova forma de enxergar a realidade".

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