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Identidade do Mal

Como lutar contra um inimigo sem dar nome a ele?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 02h05

Na semana passada, Barack Obama levou chumbo grosso de adversários e aliados por se recusar a chamar de islâmicos os variados grupos que formam a sopa de letrinhas do terrorismo hoje. A Casa Branca estava patrocinando uma conferência internacional em Washington para combater o "extremismo violento". Obama fez dois discursos defendendo sua posição, que é a de negar aos terroristas uma vitória de propaganda. O presidente foi acusado de ser ingênuo e facilmente intimidado pelo politicamente correto. Ele não é uma coisa nem outra.

Os Estados Unidos querem aliados na luta contra a explosão de violência inspirada, sim, por interpretações do islamismo e já têm bagagem de sobra em suas incursões desastradas pelo mundo para municiar recrutamento de extremistas. Líderes árabes pedem que Washington não use o nome Estado Islâmico para não conferir legitimidade ao grupo. Os críticos à direita veem na retórica de Obama um sinal de fraqueza. Seus defensores respondem: ele compreendeu que o inimigo é muito mais do que este ou aquele grupo armado e sim uma história. A narrativa de que o Ocidente quer destruir muçulmanos.

Mas há uma qualidade exasperante no tom de pregador usado por Obama em política externa. Quando diz "estamos em guerra com os que perverteram o Islã", ele assume uma autoridade teológica que não tem. A esmagadora maioria dos 1,6 milhão de muçulmanos no planeta não aprova a degola de reféns em nome da religião. Mas o Isis ou Estado Islâmico tem tanto direito de se denominar islâmico quanto qualquer outro ramo do islamismo, diz um dos mais conhecidos estudiosos do grupo que já controla um território maior do que a Grã-Bretanha, o professor Bernard Haykel, da Universidade Princeton. Ele é uma dos fontes centrais de uma reportagem de capa de Graeme Wood na revista Atlantic. Sob o título O Que o Isis Realmente Quer, a reportagem examina em profundidade um detalhado conjunto de crenças dessa distinta variedade do islamismo concentrada na marcha para o Juízo Final. Wood fornece vários exemplos de decisões coerentes com a escatologia religiosa do grupo que nós, horrorizados, enxergamos como caos e niilismo. Embora considere a posição de Obama compreensível, ele argumenta, com razão, a meu ver, que a ignorância americana e ocidental sobre o Isis contribuiu para seu crescimento. Afinal, há menos de um ano, Obama disse que o grupo terrorista não passava de um time escolar de segunda divisão. Meses depois, ordenou bombardeios e enviou centenas de militares para tentar conter o avanço do Isis no Iraque. Wood explica as diferenças importantes entre a Al-Qaeda e o Isis e compara este grupo a líderes de cultos apocalípticos norte-americanos como David Koresh e Jim Jones.

A discussão sobre o caráter islâmico do terrorismo está também ignorando um problema interno norte-americano. Acaba de ser divulgado o estudo A Idade do Lobo, sobre o terrorismo sem líderes nos Estados Unidos. Os números assustam. Entre abril de 2009 e fevereiro de 2015, ocorreram 64 ataques classificados como terrorismo no país e apenas 3 foram de autoria de jihadistas.

O estudo feito pelo Southern Poverty Law Center, uma conhecida ONG de direitos civis, mostra o alarmante crescimento do extremismo de direita nos Estados Unidos. O 11 de setembro, por sua escala, imprimiu uma identidade islâmica no medo da população. Mas o medo de um membro do grupo racista Ku Klux Klan, que se entregou ao FBI em 1997, poderia, talvez, ter alterado esta identidade. Um certo Robert Spence, hoje no anonimato do programa de proteção a testemunhas, revelou um cuidadoso plano de explodir uma refinaria de gás no Texas e distrair atenção de um assalto a banco para financiar um novo grupo. Se ele não tivesse voltado atrás e o ataque fosse bem-sucedido, a explosão teria feito, segundo calculou a polícia, 30 mil mortos.

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