Identidade da videoarte

Mostra no MAM traz conjunto de videoinstalações do Pompidou para promover diálogo entre acervos

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2013 | 02h07

Desde que criou o departamento de novas mídias do Centro Georges Pompidou de Paris, em 1982, a belga Christine Van Assche foi responsável por adquirir mais de 1,6 mil obras de videoarte para a instituição, transformando-a em uma das mais prestigiadas no gênero. Aos 64 anos, a curadora-chefe deste setor do museu é, inevitavelmente, uma sumidade no campo e ela está em São Paulo, assinando a curadoria da mostra Circuitos Cruzados, que será inaugurada amanhã para convidados e na quarta-feira para o público no Museu de Arte Moderna (MAM).

A exposição, primeira parceria entre as instituições francesa e paulistana, mescla obras dos dois museus (leia mais abaixo), marcando a vinda para o Brasil de videoinstalações históricas como Going Around the Corner (1970), de Bruce Nauman, e Moon Is the Oldest TV (1965), de Nam June Paik - pioneiros do vídeo que, aliás, foram próximos de Christine. Por ocasião da mostra, a curadora-chefe do Pompidou concedeu uma entrevista ao Estado, na qual faz um balanço da videoarte no cenário artístico.

Como foi desenvolver o departamento de novas mídias do Centre Pompidou, que tem pouco mais de 30 anos?

O Pompidou começou a colecionar vídeos em 1976, muito tempo atrás, com seu primeiro diretor, o sueco Pontus Hultén. Ele era muito aberto a este novo campo de criação. Eu entrei no Pompidou em 1980 e em 1982 pude abrir um departamento sobre videoteipes. A cada ano adquiri mais e mais obras e hoje temos 1,7 mil peças. Delas, eu fui responsável pela aquisição de cerca de 1,6 mil.

E foi difícil promover uma coleção de videoarte e estabelecer a presença das novas mídias no Pompidou?

No começo, o vídeo não estava presente nas principais galerias do museu. Aos poucos, isso foi mudando e o vídeo foi começando a ser incluído nas mostras. Acho que na início da década de 1990 essa situação mudou. O primeiro diretor do Pompidou tinha uma mentalidade mais aberta. Depois, com a mudança de direção, a instituição teve um período mais tradicional. Claro que também, a partir dos anos 90, mais artistas na Europa e na França se dedicaram a criar obras em vídeo, exibir em mais museus e galerias, e pudemos adquirir mais obras. Um contexto estava crescendo. As escolas de arte também incluíram o vídeo e a arte sonora em suas grades. Tornou-se uma demanda normal no mundo artístico. Ocorreu apenas um ponto de resistência, nos leilões. Nunca vemos vídeos nos leilões. E não sei por quê.

Como se deu seu interesse por videoarte e novas mídias?

Conheci June Paik em Paris, ele foi um pioneiro. Era muito interessante. Também conheci Nauman, Dan Graham, todos pioneiros. Para mim, estava convencida de que era uma demanda importante. Pessoalmente, estava interessada em imagens em movimento e som nos anos 1980.

Como avalia a cena da videoarte hoje?

Nos anos 1980, havia artistas que faziam apenas vídeos, como Bill Viola e Paik, mas depois, em meados da década de 1990, os artistas estavam aptos a fazer qualquer coisa. Fotógrafos, pintores, videomakers, criadores usando internet, o que foi uma reabertura da videoarte. E hoje não é possível ver uma Bienal ou Documenta que não tenha vídeos. É uma mídia completamente normal e dinâmica, um campo muito criativo, porque muitos artistas também estão embrenhados no cinema.

Acredita que a coleção do Pompidou seja razoável?

Não, precisamos aumentá-la. Queremos, por exemplo, adquirir vídeos de artistas do Brasil. Já temos alguns, como das pioneiras brasileiras Sonia Andrade, Letícia Parente e Anna Bella Geiger. Temos também obras de Cao Guimarães, Rivane Neuenschwander e Marcellus L.. São todos importantes e muito internacionais. Eu mesma selecionei as obras desses brasileiros. Da América Latina, temos também vídeos da Argentina e do México, mas do Brasil é o que mais adquirimos em termos de América do Sul. Estamos procurando obras do Chile e da Colômbia. A aquisição de obras brasileiras começou nos anos 2000. Nossa coleção é realmente internacional, não apenas europeia e americana, com vídeos do Líbano, Turquia, China, Coreia e Cingapura.

Quanto é o orçamento que o departamento de novas mídias do Pompidou tem para aquisição de obras?

Não temos um orçamento fixo e fazemos aquisições com fundos privados. Mas não posso dar números.

Poderia comparar o Pompidou e outras instituições em termos de coleção de videoarte?

O MoMA tem uma boa coleção monoteipe e eles começaram a adquirir instalações aos poucos. A Tate começou nos anos 1990 e por isso perdeu os pioneiros. Coleções de São Francisco e Minneapolis são destacadas também e a do Kunsthalle de Basel. Pompidou, MoMA e Tate são os mais persistentes.

Como pensou essa seleção pequena de videoinstalações do Pompidou para essa mostra no Brasil?

Pensamos que seria interessante trazer obras de artistas pioneiros em termos de instalação. Uma das razões é porque todos são artistas importantes e essas obras nunca foram vistas no Brasil. Podemos encontrar muitos conceitos por trás de suas obras e traçar relações com trabalhos da coleção do MAM. É uma seleção pequena por causa do espaço do museu. Tentamos não fazer uma mostra cronológica, mas misturar mídias e períodos.

Por que a instalação de June Paik foi atualizada com televisores de hoje em dia? Como lidar com a questão da tecnologia numa coleção de videoarte?

A tecnologia rapidamente se torna obsoleta e as pessoas jogam fora equipamentos. Repomos as peças para tecnologias contemporâneas. Mas temos sempre as versões originais das obras no Pompidou, com seus televisores antigos. A obra de June Paik, que tem ímãs atrás dos televisores, não pode viajar, é muito frágil. Podemos exibi-la originalmente no Pompidou, mas não fora. Sempre que adquirimos um trabalho, perguntamos aos artistas se podemos fazer cópias das obras e repô-las para tecnologias contemporâneas para podermos exibi-las. Copiamos as obras para DVDs, fazemos isso por meio de contrato. É necessário achar meios de os trabalhos perdurarem no presente e no futuro.

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