Ideias para salvar Clouzot do inferno

Em formato de docudrama, Serge Bromberg resgata filme inacabado dos anos 70 que se tornou cult

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

Janeiro, em Paris. Durante o Rendez-Vous du Cinema Français, série de encontros com diretores e autores que a Unifrance organiza para promover o cinema da França pelo mundo, chega a vez de Serge Bromberg. Ele codirige O Inferno de Clouzot, que estreia hoje.

Naquele momento, é impossível prever que, graças aos acasos da distribuição e exibição, dois filmes de um perfil tão ousado como L"Enfer e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo estarão chegando simultaneamente aos cinemas de São Paulo. Viajo foi exibido na mostra Horizonte do Festival de Veneza do ano passado. O Inferno integrou a programação da seção Cannes Classics, em 2009. A mostra, em geral, exibe filmes restaurados. Bromberg não apenas "resgata" o filme maldito de Clouzot. Ele propõe outra coisa.

É interessante que o próprio Bromberg explique quem foi Clouzot, e qual o sentido de L"Enfer no conjunto de sua obra. "Henri-Georges foi um diretor importante da geração pré-nouvelle vague. Era chamado de Hitchcock francês, mas a definição não procede, embora tenha trabalhado num registro em que o outro era mestre, o suspense. O ocaso de Clouzot começa quando a nouvelle vague se instala no cinema francês, mas nem um chefe de fila do movimento como Truffaut ousava chamá-lo de "medíocre", como a maioria dos diretores da época. Clouzot fez obras marcantes, que permanecem, mas, por volta de 1960, os filmes começam a ficar mais difíceis. Ele fracassa, o que mina sua confiança."

Foi nesse quadro, de descenso, que surgiu O Inferno, nos anos 1970. O filme era interpretado por Romy Schneider e Serge Reggiani. Mostra um homem obcecado pelo ciúme e que cria um inferno para a mulher e ele. "Clouzot teve problemas de saúde e o filme foi interrompido. O mais estranho é que caiu numa espécie de buraco negro, por causa de problemas com as empresas seguradoras. Após a morte do diretor, criou-se o mito de um filme cult, acentuado quando a estrela também morreu, em circunstâncias trágicas. Todo mundo falava na beleza das imagens, na sensualidade de Romy. Como as imagens estavam interditas, a fama do filme foi crescendo."

O nó. Bromberg não foi propriamente atrás do filme perdido, mas se aproximou da viúva de Clouzot, Inès. Descobriu que as imagens existiam de fato. Achou-as deslumbrantes. Veio o desejo de recuperá-las, mas como? "De início, foi complicado desfazer o nó das seguradoras. Liberados as imagens e sons, permanecia o problema da apropriação." Claude Chabrol já filmara o roteiro de Clouzot com Emmanuelle Béart e François Cluzet, mas Bromberg não tem muito apreço por Ciúme, o Inferno do Amor Possessivo. "Chabrol banalizou o roteiro por meio de uma psicanálise de almanaque. E o filme dele não tem, nem de longe, o impacto visual do de Clouzot."

Entre um suspense (O Salário do Medo) e um terror, O Corvo, Clouzot fez O Mistério Picasso, investigando o processo criativo do pintor. "É possível que a experiência o tenha levado a criar as imagens de vanguarda de O Inferno. Pois a maneira de trabalhar a cor, o ângulo, tudo no filme pertence ao domínio da experimentação pictórica e dramática. Poucos autores foram tão radicais na tentativa de usar o concreto, a imagem, para investigar a imaginação até como doença", diz Bromberg.

A questão era - como preencher os buracos do filme? Bromberg não queria fazer um documentário tradicional para exumar as imagens de Clouzot. Ele adotou o formato de um docudrama. As partes que faltam são "lidas", não "interpretadas" - para não misturar com o material original - por atores. O resultado é uma experiência única. Bromberg admite que ficou feliz por haver salvado L"Enfer, mas ele não quer ser o Indiana Jones do cinema.

No limbo. "Imagino que o processo pode ser aplicado a outros clássicos que foram abandonados e estão no limbo, mas não me interessa ser um arqueólogo de imagens. Sobre a autoria de Clouzot, construí a minha autoria, e isso foi o fascinante."

Uma dupla obsessão, a do personagem de Serge Reggiani e a dele? "Um pouco sim, mas a minha obsessão não era por Romy, era por Clouzot." A atriz, de qualquer maneira, é maravilhosa. "Quase pirei trabalhando 24 horas por dia, durante meses, sobre as imagens de Romy. Era bela, era intensa. Sentia-me como o James Stewart de Um Corpo Que Cai, um necrófilo desejando uma morta." Até por ela, O Inferno de Clouzot é apaixonante, um programão que você não deve perder.

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