Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Idades

Bons tempos em que, em vez de não ter mais idade, nós ainda não tínhamos idade

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 02h00

Não sou religioso. Devo ter deixado minha fé no bolso da fatiota azul, de calças curtas, com que fiz minha primeira comunhão. E a única coisa de que me lembro do evento, além da fatiota (e da gravata prateada!) não é a emoção de receber a hóstia no rito eucarístico, são os doces que tinha em casa, depois. Acho que foi ali que fiz a minha opção preferencial pela perdição. Invejo quem tem fé, mas não posso deixar de pensar que a minha religião particular, uma espécie de panteísmo urbano (devoção por pastéis e boas livrarias e a crença de que há um deus, sim: o deus do oboé, que além de ser um instrumento divino é o que afina todos os outros), é a única sensata, em meio à crise mundial do monoteísmo. 

Bons tempos em que, em vez de não ter mais idade, nós ainda não tínhamos idade. E sonhávamos com tudo o que viria, quando tivéssemos. Entrar em filme proibido até 14 anos. Beber e fumar. (O importante não era a bebida e o cigarro, era a pose que se fazia bebendo e fumando. Ficar adulto era adquirir a pose.) Beijar como beijavam nos filmes – principalmente os proibidos até 14, já que nos proibidos até 18, que não nos deixavam ver, ninguém sabia o que acontecia. Ficar acordado até mais tarde. Ganhar a chave da casa. Dirigir carro. Deixar crescer um bigode. Ou um projeto de bigode.

Ainda não ter idade era ficar pinoteando no partidor, indócil, como um cavalo esperando a largada. E não ter mais idade é ficar com esta impressão que até um ato de revolta por tudo que não fizemos quando tínhamos idade e agora não podemos mais, não seria, assim, apropriado para a nossa idade. 

Pintinha. Sempre acreditei que jogar papel impresso fora é pecado. Já fui um fundamentalista, daqueles de guardar até volante de dedetizadora, mas minha mulher conseguiu, aos poucos, me trazer para a razão. Hoje, já aceito que doar livro não é o mesmo que jogar no lixo e que o limite da existência de uma revista é exatamente o limite entre o papel e o farelo. Mas ainda sofro para me desfazer de suplementos guardados para ler depois que não leria nunca, pois não se distingue mais o texto do mofo. E por estes dias, tentando arrumar meus papéis e livros num daqueles periódicos surtos de virtude que nos acometem, e do qual nos arrependemos em seguida, dei com algumas cadernetinhas quase em decomposição e a revelação de que eu era muito mais organizado na adolescência. Uma das cadernetas, por exemplo, é de telefones e endereços caprichosamente anotados e com lembretes crípticos, como “Ana Maria (a da pintinha)”. Não tenho a menor ideia de quem era a Ana Maria, mas acho que me lembro da pintinha. E em outra caderneta tentei manter um registro detalhado dos meus gastos em Nova York, quando morávamos em Washington e as minhas aventuras solitárias na cidade grande eram com orçamento apertadíssimo. Há alguns espantos. Passagem para NY (de ônibus): 5 dólares. Almoço em NY: 90 centavos. Cinema: 70 centavos. Revista (provavelmente de sacanagem): 35 centavos. Subway: 15 centavos. Entrada para ouvir jazz no Birdland: um dólar e 25!

O ano era 1954. E o mais espantoso: eu tinha 18 anos!

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.