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Icônica marca do jacaré está à frente dos looks da França na Olimpíada

Curiosamente, quem está à frente da grife do jacaré hoje é um português, o estilista Felipe Oliveira Baptista

Entrevista com

Felipe Oliveira Baptista

Maria Rita Alonso, Especial para O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2016 | 04h00

Na moda, a França é a França. É o berço e o topo do movimento fashion mundial. Por isso, vestir a delegação francesa em uma Olimpíada significa bastante. Pela segunda vez, coube à marca Lacoste o desafio de traduzir o fair play e a elegância do país em algumas linhas de uniforme. Curiosamente, quem está à frente da grife do jacaré hoje é um português, o estilista Felipe Oliveira Baptista. Ele assumiu o cargo em 2010 e desde a época vem marcando pontos e ganhando posições no competitivo mundo da moda.

Radicado em Paris há 18 anos, Felipe chegou a apresentar sua própria marca na Semana de Alta-Costura de Paris. Mas, recentemente, deu uma pausa na vida dupla para dedicar-se apenas ao trabalho na Lacoste, onde foi acumulando áreas como a de acessórios. Em visita ao Brasil para a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio e a inauguração da loja da Lacoste, no Club France, no Jardim Botânico, o estilista falou sobre o fim das tendências, o ritmo frenético da indústria, o desafio de desenhar um uniforme e o legado do tenista René Lacoste, que criou a grife há mais de 80 anos. “Sem estilo, jogar e ganhar não são suficientes”, dizia René, ele mesmo um medalhista olímpico de tênis, nos jogos de 1924, época em que recebeu o apelido de “Le Crocodile”.

Foi um grande desafio imaginar os uniformes olímpicos?

Sim, é um processo de criação completamente diferente. Temos atletas de todos os tamanhos, que precisam de roupas para três ocasiões bem específicas: os desfiles nas cerimônias de abertura e de encerramento, os jantares e eventos menores e o dia a dia na Vila Olímpica. Eu precisava dar aos atletas uma roupa com a qual eles se sentissem confiantes e chiques, e com as quais, ao mesmo tempo, pudessem se sentir eles próprios.

Existem especificidades para confecção ou a criação é livre?

Para o desfile, o pedido é que o uniforme tenha um ar de alfaiataria, mas eu não queria que os atletas vestissem blazers. Queria oferecer um uniforme esportivo, que carregasse o chique francês. Para as roupas que eles usam na vila, precisei pensar na mala completa. A organização relaciona as peças necessárias e a criação parte daí.

Sendo português, como se sente vestindo a equipe francesa?

A França é meu segundo país, minha mulher é francesa, meus filhos têm as duas nacionalidades. Estou nadando na cultura francesa como eu nado na portuguesa. Mas, claro, faria uma roupa diferente se estivesse criando o uniforme da delegação portuguesa. Cada cultura tem seus códigos.

Na infância, você costumava vir ao Brasil com seus pais. Como é a sua relação com o País?

Há seis anos, voltei a vir direto ao Brasil. Pelo menos uma vez por ano, passo férias em Salvador ou no Rio. Para mim, esses dias parecem uma extensão da infância. Adoro o Brasil.

Na Europa, as pessoas estão assustadas com o vírus da zika, o momento político conturbado do País e com a segurança. Você também está?

Esses são assuntos fortes e preocupantes. Mas este ano na França nós tivemos tantos problemas também... Acho que os Jogos Olímpicos do Rio acabaram sendo quase que um parênteses para nós. É um tempo em que podemos esquecer dos problemas agonizantes e viver emoções e esperanças de tempos de mais paz e união.

A Lacoste desfila na semana de moda de Nova York, que aposta no novo modelo do “veja agora, compre agora”. De que forma isso o afeta na criação?

Para mim, é uma questão de timing até que os calendários dos desfiles se ajustem aos lançamentos nas lojas. O que muda muito é a quantidade de coleções que lançamos hoje, que é bem maior. Quando comecei, há 20 anos, as coisas eram bem diferentes. Hoje, o estilista trabalha com muito mais gente, com uma carga de trabalho muito maior, mas essa é uma questão que não tem volta. Temos que nos adaptar.

A moda está cada vez mais casual e esportiva. Como a Lacoste aproveita esse fato?

A adesão à roupa esportiva reflete nosso momento social, nosso jeito de viver. Não é só uma questão estética. As pessoas estão fazendo mais esportes e viajando mais, querem conforto e roupas funcionais e práticas. É certamente um ótimo momento para nós.

Você trabalha com tecidos tecnológicos em roupas esportivas?

Uso vários novos materiais. As grandes inovações da moda hoje vêm do mundo esportivo. E já era assim quando René criou a camiseta polo e a primeira raquete de tênis com aço tubular (até então, elas eram feitas de madeira).

Para você, quais são as peças fundamentais de um guarda-roupa contemporâneo?

Um bom tênis, um jeans: as coisas clássicas, que não passam de moda. Mas roupa hoje também é uma questão de estilo e de gosto pessoal. A moda está se livrando de ditados, de tendências e de obrigações. Daqui para frente, as tendências e os padrões vão ficar cada vez mais diluídos. O que é bom, não é? É ótimo!

 

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