Ícone com peruca e sem pudor

Fotógrafo norte-americano Christopher Makos é um tipo engraçado

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h12

O fotógrafo norte-americano Christopher Makos é um tipo engraçado. Seu extravagante terno verde-limão contrasta violentamente com o tênis amarelo - e esse choque cromático parece herdado das telas de Andy Warhol, embora combine com a cor palha de seus cabelos, que faz lembrar a fixação de seu amigo Andy Warhol por perucas do mesmo tom. O rei da arte pop usa oito delas na série Lady Warhol, que Makos fotografou em 1980, registrando Warhol como mulher, como sugere o título. Não se trata de travestismo ou crossdressing, "até porque Warhol não usa vestidos na série", observa Makos, que convenceu o amigo a posar com maquiagem pesada, parodiando cinco tipos dos anos 1970, de punks a donas de casa desmioladas, passando por socialites metamorfoseadas por plásticas.

Makos não estava fazendo nada original ao fotografar Andy Warhol como mulher. Em 1921, o surrealista Man Ray - de quem Makos se tornou próximo nos anos 1970 - fotografou o amigo dadaísta Marcel Duchamp em roupas femininas. Duchamp, que não era gay, gostou tanto da experiência que passou a assinar vários de seus escritos com o nome de sua persona, Rrose Sélavy, a enigmática "aristocrata" que serviu de inspiração ao poeta surrealista Robert Desnos - na verdade uma simples bibliotecária.

"Não queríamos simplesmente repetir a experiência de Man Ray e Duchamp na série", garante Makos. De fato, são dois trabalhos bem diferentes. A "Rrose" encarnada por Duchamp nas fotos de Man Ray parece mais uma mulher fatal de filme noir. Já "lady Warhol" expõe as marcas da vulgaridade da cultura americana média, escancarada na maquiagem exagerada pela luz branca, tão branca que concorre com a pele do artista. Dá para notar que foi Makos quem ensinou Warhol a fotografar - e são famosos os retratos em Polaroid feitos pelo pintor. Fotógrafo de celebridades (Liz Taylor, Mick Jagger, Tennessee Williams) e colaborador de revistas como Interview, Makos equilibrava essas passagens pelo jet set com incursões pela cena underground nova-iorquina, publicando um livro definitivo sobre a cultura do glam rock e do punk nos anos 1970, White Trash (Lixo Branco).

"Não sou nostálgico, nem futurólogo, e não imaginava que iria virar um livro de referência", diz o bem-humorado Makos, que se define como um terapeuta de seus fotografados (Liz Taylor, em especial). "Essa série foi uma brincadeira, mas ela volta no momento certo, em que a questão da identidade se tornou séria." / A.G.F.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.