<i>Besouro Cordão-de-Ouro</i> encanta o público em Curitiba

Não só correspondeu à expectativa positiva que havia provocado como a superou, e em muito, o espetáculo Besouro Cordão-de-Ouro, um musical sobre um mítico capoeirista da Bahia, o Besouro do título, que estreou no sábado, 24, na mostra oficial do Festival de Teatro de Curitiba. Dirigido por João das Neves, traz uma espécie de síntese poética da experiência desse diretor e dramaturgo: no palco está a mesma vitalidade e força musical dos famosos shows do Opinião, por ele dirigidos; a arte do ator/contador de histórias - linguagem que João das Neves explorou com brilho em seu espetáculo Primeiras Histórias - e por fim a força do teatro político desse autor de O Último Carro, teatro político no melhor dos sentidos, daquele que resgata oprimidos do pior dos espólios: a dignidade de sua cultura. E mais. A experiência e o talento de João das Neves estão potencializados pela extrema beleza e força da música e do texto, ambos assinados por Paulo César Pinheiro. A esses dois criadores desse esplêndido musical interessou menos os frios dados biográficos do mais famoso capoeirista baiano e mais a dimensão mítica desse personagem de fundamental importância para a afirmação da identidade africana. Com essa opção, a direção ficou livre para recriar poeticamente sua biografia - e por extensão a identidade cultural dos negros brasileiros - por meios de narrativas orais que revelam não só a mitologia de origem africana como seu sincretismo e as apropriações já delas feitas, como a luta do santo guerreiro São Jorge contra o dragão da maldade. Capoeira e candomblé Ao longo do espetáculo, os atores revelam ao público leigo por meio de linguagem lúdica e envolvente as muitas facetas dessa cultura, como na cena em que mostram os traços comuns entre a dança da capoeira e os passos do candomblé. As histórias são narradas diretamente ao público - acomodado no chão sobre almofadas brancas e esteiras - ora em poética linguagem falada, ora com canto e dança por um elenco de oito negros talentosos que se apropriaram de forma plena da proposta cênica. É um prazer à parte apreciar a forma como o ator mineiro Maurício Tizumbá domina a arte de contar histórias deixando a platéia siderada. Ora tira do berimbau um som inesperado, ora surpreende com uma guinada de corpo, sempre conseguindo o efeito desejado, seja suspense ou humor. E não é o único a dominar tais recursos. É igualmente emocionante ouvir a primeira versão da morte de Besouro no vozeirão a um só tempo grave e velado da atriz Iléa Ferraz. Junto a tudo isso, a capoeira, brilha e mobiliza a platéia que não resiste e bate palmas e canta com os atores, sem contar os que se aventuraram a entrar na ?dança? jogando pernas e quadris ao som do berimbau. Um espetáculo arrebatador que conseguiu por algum tempo ser aquilo que José Celso Martinez Corrêa classifica - muitas vezes sendo mal entendido - como orgyastico, por unir espectador e atores numa mesma pulsão emocional e corporal. Que ninguém imagine o ?carnaval para turistas?. Pelo contrário. O que se consegue em Besouro Cordão-de-Ouro é uma rara harmonia entre o apolíneo e o dionisíaco: o ritmo arrebata, porém pulsa o tempo todo sob pleno domínio da forma.

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