Ian McEwan escreve sobre efeito do 11/9

Um dos mais respeitados autores britânicos da atualidade, ganhador do Booker Prize por Amsterdam, Ian McEwan é um escritor de curiosidade inesgotável, talvez por ter tido muito contato com a ciência em tempos de estudante. Ele foi, inclusive, aluno do escritor e crítico inglês Malcolm Bradbury. "Romances são, para mim, uma investigação da condição humana", explica o escritor, que gosta de explorar, especialmente em seus contos, a perspectiva de crianças ou adultos imaturos que ainda têm pouca aproximação com o mundo. "Gosto de descrever as reações de uma pessoa a partir de modificações que ela sofre em sua vida e isso, do ponto de vista de um adolescente, é bem interessante, pois se trata ainda de uma pessoa cheia dos desejos de um adulto." McEwan, aliás, prefere tratar de vidas simples que são surpreendidas por fatos turbulentos. No momento, ele escreve, por exemplo, sobre o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. "Não é a tragédia que me interessa, mas como o destino interfere no curso dessas vidas." O escritor observa que momentos de crise ou perigo oferecem meios de explorar os personagens, principalmente as qualidades e defeitos da personalidade. E, com isso, pode desenvolver diferentes estilos de escrita. E a inspiração normalmente não é controlada - Reparação (Companhia das Letras), por exemplo, um de seus mais elogiados livros recentes, surgiu a partir de uma simples imagem: "Certa manhã, escrevi cerca de 600 palavras em que descrevia uma moça entrando em um quarto de vestir, com flores nas mãos e em busca de um vaso", lembra. "Por razões que não posso esclarecer, eu tive a certeza, naquele dia, que estava iniciando um romance." As imagens, aliás, surgem poderosas em seus livros. Amor Para Sempre, por exemplo, é um romance marcado por passagens plenamente visuais. McEwan lembra sua preferência pelo cinema - sua obra O Inocente, aliás, já foi adaptado para as telas -, chegando a escrever roteiros. Mas nega que o cinema seja uma influência decisiva. "Sempre gostei que meu texto tivesse uma qualidade visual", explica. "Minha pretensão é que o leitor visualize o mesmo que eu vi, quando escrevi a história; por isso, a claridade é uma grande virtude na escrita." Ele lembra que a linguagem literária é saturada de metáforas visuais, o que antecipou o cinema. "Há imagens que vejo nas telas que me impressionam e ficam retidas na memória", afirma ele, que cita o início de Cidade de Deus, filme brasileiro de Fernando Meirelles e Kátia Lund. "A perseguição daquela galinha me vem à memória como se fosse uma tomada única, sem cortes, tamanha a sua densidade." O cinema, no entanto, é para ele mais uma diversão que um trabalho. "Como levo tempo entre um romance e outro, escrevo roteiros para exercitar."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.