Ialorixá é candidata ao Prêmio Multicultural Estadão

Domingo, a ialorixá Stella de Oxóssi passou a noite fazendo uma "obrigação" - um ritual do candomblé. Deitou-se às 3 da manhã. Às 6 estava na cozinha, cheia de energia, cuidando de outras obrigações, as de dona de casa. "O organismo já está acostumado, não posso mais ficar na cama", diz. Aos 76 anos, forte e serena, bem-humorada, sempre, severa quando é preciso, Mãe Stella comanda o Ilê Axé Opô Afonjá, comunidade do bairro de São Gonçalo da qual é a sacerdotisa suprema. Ela é candidata ao Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura.Às vezes, acorda mais cedo ainda. Então, aproveita o silêncio para ler e escrever. Os terreiros sempre se utilizaram da tradição oral para transmitir os conhecimentos. Mãe Stella, porém, resolveu sistematizá-los por escrito. "O que não se registra o vento leva", diz ela no livro Meu Tempo É agora que escreveu para "sacudir o povo do candomblé", lembrá-lo da herança que está deixando se perder. "Com o cuidado de não revelar a essência, explico as coisas da religião de maneira que chegue ao alcance das pessoas", conta.Sem preconceitos, abre as portas do terreiro para quem quiser entrar e recebe a todos com igual generosidade. "Para mim, do ministro ao gari, todos merecem o mesmo tratamento." Em troca, recebe respeito e admiração. "Vim só ver a senhora, minha mãe!", diz-lhe um rapaz, pedindo-lhe a bênção, depois de passar horas quietinho na varanda da Casa de Xangô. "Estou aliviado.""Mãe Stella tem mais de 60 anos de trabalho espiritual. Sacerdotisa de uma tradição religiosa que se apóia, sobretudo, nos sentimentos, é, também, uma intelectual da cultura afro-brasileira capaz de oferecer carinho, amor e luzes a todos que a procuram", depõe o ministro da Cultura, Francisco Weffort. "É Stella de Oxóssi, o orixá que mostra o caminho reto nas incertezas do mundo."Padre católico, apostólico e romano, como faz questão de ressaltar, d. Giglio Felicio, bispo auxiliar da Diocese Primaz do Brasil, a Arquidiocese de Salvador, conta que a admira não só pela "bravura no terreiro" como por sua luta pela preservação e promoção da cultura afro-brasileira. "Os negros sofreram a pior violência que um ser humano pode sofrer que é a escravidão. Além da religião, trouxeram culturas de várias vertentes que ela batalha para que não sejam desprezadas.""Com a sua liderança espiritual ela conforta almas e corações", diz Carlos Moura, presidente da Fundação Palmares. "É uma mulher tão simples em sua grandeza, capaz de desanuviar o ambiente mais pesado", acrescenta a advogada paulista Cleo Martins, branca, de classe média, "filha" de Mãe Stella. "Perto dela a vida parece menos assustadora", completa o ator baiano Ricardo Bittencourt.Stella, que nasceu na Ladeira do Ferrão, no centro histórico de Salvador, é da terceira geração de descendentes africanos. Formou-se enfermeira sanitarista, profissão que exerceu por mais de 30 anos, estudou francês, piano e ioruba. Sua bisavó, Maria de Konigbgbe, era uma menina quando foi capturada na rua, como bicho, e trazida num porão de navio para a Bahia. Órfã aos 6 anos, Stella foi criada por uma tia e, como todo baiano da época, na religião católica. Foi batizada, crismada, fez primeira comunhão... Aos 11 anos, a mãe de criação levou-a a um terreiro.Aos 13 foi iniciada na "religião dos orixás", como prefere chamar o candomblé. Em 76, o Pai Agenor Miranda, oluwô - o "dono do segredo", jogou os búzios e a escolheu para ser ialorixá - sacerdotisa suprema do Opô Afonjá. "Passado o primeiro impacto, fui ver a responsabilidade que se abatia, feito flecha, sobre meus ombros", lembra.Era uma mulher jovem ainda, que gostava de viver com simplicidade, de viajar, de ser livre. Passou um tempo só matutando, "organizando a cabeça" pedindo "inspiração" e "aconselhamento" aos orixás. "Só me restava seguir em frente, arregaçar as mangas", diz. "Procurei aceitar as pessoas como são, a agir com dignidade e justiça." Recebeu apoio de uns, críticas e desconfiança de outros. "Pedi forças a Xangô e consegui segurar a barra. Fui firme, sem ser intolerante. Não se pode mudar tudo da noite para o dia." "Pensando, pensando," começou a vida de mãe-de-santo. Dois anos depois recolheu o primeiro "barco" - a entrada no terreiro de uma turma de iaôs, as noviças. "Foi uma prova de fogo." Tendo o tempo como aliado e conselheiro, começou as "reformas", na verdade, uma revolução no axé.Na volta de uma viagem à Nigéria, em 81, achou por bem criar um museu. Não se conformava de ver tantos objetos de valor jogados pelos cantos. E assim nasceu o Ilê Ohun Lailai, o primeiro museu de "coisas do candomblé", a história relatada pelos próprios donos. "É a nossa memória", diz. Construiu algumas casas de orixás, reformou outras, murou os limites da roça, fez melhorias no terreiro. "Fui botando o axé como eu achava que devia ser."Criou cargos religiosos nos moldes africanos. Revolucionou a tradição ao transformar uma religião oral em escrita. Tornou-se a mais importante teóloga da religião iorubaa. Levou o candomblé para o mundo, iniciando pessoas de diferentes origens e procedências. "Orixá não tem preconceito de cor e de cultura. Nós é que temos."Em 83, liderou um movimento contra o chamado sincretismo religioso de justaposição. A ficha caiu em um congresso sobre orixás e cultura, nos Estados Unidos. "Vi como o povo negro de lá se organiza. Aqui, a gente chega na igreja e o padre diz que não se pode acender uma vela para Deus e outra para o diabo. No dia de Oxóssi tinha missa para São Jorge, mas não se podia usar as contas. Pensei: ora, se a gente faz o ritual seriamente não precisa ir à igreja receber os sacramentos nem pedir a bênção ao padre!"Os mais velhos não gostaram da novidade. Mas ela foi em frente. Fez documento, ato público, lançou o manifesto Santa Bárbara não É Iansã, mandou recolher todas as imagens de santos que havia no terreiro. Rompeu com o sincretismo. "Quem é do orixá é que entende o sentido de cada obrigação. Não precisa de mistura para autenticar a validade", explica. "Minha esperança são os mais novos que entenderam que o candomblé é uma religião completa e cortaram esse vínculo."Entrar no Opô Afonjá é como chegar a um pedacinho da África. Ao transpor o portão do axé, parece que toda a confusão do mundo ficou para trás. Ali, entre jaqueiras, cajazeiras, dendezeiros e um grande iroku - a árvore sagrada do candomblé -, entre canteiros de flores e plantas medicinais ficam as casas de Exu, Omolu, Ossãe, Oxum, Oxalá, Iemanjá, Iansã, Xangô, Ogum e Oxóssi cada uma na cor correspondente, o ilê ibó iku - a casa onde são realizados os cultos aos ancestrais, a escola, o museu, a biblioteca. Há um cheiro bom no ar, um som de atabaques, mulheres usando saiões, torsos na cabeça e contas, meninos jogando capoeira.Em 99, quando Mãe Stella comemorava 60 anos de iniciação o Opô Afonjá, um dos terreiros mais antigos da Bahia e do Brasil, foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. "Além de templo, é um grande centro cultural, fator de preservação da nossa memória como povo e como nação", diz Weffort. "Por isso, o tombamos como munumento nacional: cuidando das nossas raízes negras, ele cuida de todos nós."Um domingo de cada mês, Mãe Stella reúne os filhos-de-santo para conversar. Nessas conversas ensina muito, aprende mais. No seu livro escreveu para todos o que gostaria de dizer a cada um em particular. "Quando falo em abertura, ou quando dizem que sou liberal demais é porque aceito sugestões de pessoas mais novas ou mais velhas. Tem dado certo."No axé há umas 30 casas de filhas-de-santo, cada uma com cinco, oito, dez filhos. Ela via a criançada solta, meninos analfabetos, largados, sem futuro. "Quero ver meus filhos com anel no dedo, aos pés de Xangô!" - está escrito em um cartaz bem na porta da escola onde hoje estudam mais de 300 crianças, em dois períodos. "É preciso ter instrução para não passar pelo dissabor de dizer sim à própria sentença", ensina Mãe Stella.Além do ensino fundamental têm aulas sobre "as coisas dos orixás". Aprendem a identificá-los, a saber o dia que lhes é dedicado, as oferendas que apreciam. "Não catequizamos, apenas queremos que entendam o que é o candomblé e se conscientizem que a escola fica dentro de um espaço sagrado." A escola é tida como referência.É fomentadora cultural do Alaindé Siré, a festa do tocador de atabaque, que ocorre há quatro anos no axé. Criou a Associação da Juventude Afonjá, para adolescentes. Cuida do projeto Criança em Risco e de um grupo de estudos para adultos. No Afonjá, só não vai à escola quem não quer.Quanto a ela, lê de Paulo Coelho ao dalai-lama. Ouve ópera, jazz, MPB. Gosta de teatro, de filmes de arte, de jantar fora, tomar um uisquinho. "Adoro lançamento de livro", revela. Cuida do corpo, que considera um templo. Cortou os cabelos bem curtos porque é prático. Não usa brinco, enfeites, essas bobagens. Tem várias pinturas com as imagens que os artistas fazem de Xangô, deus do fogo. Perto da cama, um quadrinho de São Jorge. Não, São Jorge não é Oxóssi, mas ela ganhou o presente e, como tudo que ganha, tenha valor ou não, guarda com carinho.

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