<i>A Trégua</i>, do uruguaio Mario Benedetti, ganha nova tradução

Aos 86 anos, o escritor uruguaio Mario Benedetti vive o instante. Um dos mais importantes nomes da literatura latina atual, ele se revela um obcecado pelas questões centrais da sobrevivência, desde relações amorosas até rituais burocráticos que cercam a vida profissional. É o que marca seu romance A Trégua, que, lançado em 1960, ganha agora uma nova tradução nacional, via editora Alfaguara (184 páginas, R$ 33). Ao registrar uma alma, no mínimo cheia de tormentas, na figura de um viúvo que está prestes a se aposentar em uma firma de autopeças e que se apaixona por uma jovem subordinada, Benedetti propõe um questionamento sobre a felicidade e um retrato agridoce dos difíceis relacionamentos humanos. Transformado em filme e com mais de cem edições em espanhol, A Trégua tornou-se seu romance mais famoso. Tradutor fiel da decadência uruguaia, Benedetti terá mais dois livros lançados pela Alfaguara neste ano, El Buzón del Tiempo (com título provisório de Correio do Tempo) e Primavera con una Esquina Rota (ainda sem título), confirmando a feliz tendência das editoras brasileiras em acreditar na literatura latino-americana, tradicional ou não. De Montevidéu, Benedetti conversou, por e-mail, com a Agência Estado. Agência Estado - Como o senhor analisa hoje o abismo geracional de A Trégua? Mario Benedetti - No livro, a diferença geracional acontece em dois níveis, entre pai e filhos e entre homem adulto e mulher jovem. Se eu escrevesse a história no tempo presente, as relações não teriam as mesmas características, uma vez que o país mudou - na verdade, o mundo se alterou. Como eu disse no livro, dedicado aos jovens, se os responsáveis pelo mundo são todos veneravelmente adultos, e o mundo está desse jeito, será que não devemos prestar mais atenção nos jovens? Sou um poeta velho e, como tal, ao invés de acreditar - como muitos da minha geração - que os velhos somos sábios, me pergunto, a cada dia que passa, se o mundo não estaria assim porque não cedemos espaço aos jovens. Falar sobre os direitos da mulher e permitir que ela trate do sexo com tanta liberdade implicou em um grande passo na narrativa da época? Penso que, como em todas as épocas, a narrativa acontece em um contexto determinado e é um reflexo da realidade. Em um passado não tão distante, havia coisas que eram apenas sugeridas, mas agora a franqueza invadiu também a literatura. Isso porque antes influenciou as relações sociais em sua linguagem a partir da luta pelos direitos humanos e suas conquistas. Como explicar as 125 edições de A Trégua e suas mais de vinte traduções? Benedetti - Na realidade, o livro soma mais de 150 edições. Uma das razões de tamanha difusão é sua trama, que trata tanto de um relacionamento familiar envolvendo o trabalho como também social e político. Sem se esquecer do destaque para uma relação amorosa contextualizada na classe média, o que é comum na maioria dos países, independentemente dos regimes políticos. Como o senhor avalia a adaptação cinematográfica de A Trégua? Benedetti - Sem prejuízo de seus valores, especialmente em relação às interpretações, tive algumas diferenças com o diretor Sergio Renán, com quem hoje mantenho uma boa relação. O que mais pesou foi a mudança de cidade, já que o romance se passa em Montevidéu e o filme transcorre em Buenos Aires. Também não vi reproduzido no cinema o contexto político. O senhor disse certa vez que a literatura pode revelar às pessoas sentimentos antes desconhecidos. O que ela lhe revelou? Em primeiro lugar, revelou minha própria possibilidade de me dedicar a ela. A partir da quantidade livros que li e que me pareceram excelentes, surgiram sempre personagens, ambientes e até palavras que me deixaram seu ensinamento. Por exemplo, sempre recordarei meu descobrimento da literatura do poeta argentino Baldomero Fernández Moreno. Em um momento em que a poesia que se escrevia no Rio da Prata era muito obscura, quase esotérica e recheada de artifícios que afastavam o leitor, a obra de Fernández Moreno mostrou que era possível escrever boa poesia com clareza, sensibilidade e mantendo um bom nível de qualidade. Qual o papel da literatura para o senhor? No plano pessoal, eu poderia dizer que a literatura tem em minha vida um papel fundamental. No âmbito social, considero que a leitura fornece elementos muitas vezes geradoras de novas idéias e de novas atitudes, despertando em todos a imaginação criadora.

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