Hysteria e O Fingidor: vale a pena ver de novo

Num País onde não existem companhias oficiais subsidiadas - com apoio para conservar acervo e manter um grande repertório vivo - são sempre bem-vindas a chance de rever, ou de finalmente ver, bons espetáculos há muito tempo fora de cartaz. Pois essa oportunidade o público paulistano tem agora em dose dupla - Hysteria e O Fingidor reestréiam na cidade. O primeiro estreou há quatro anos, ganhou Prêmio Revelação da APCA, cumpriu temporada em diferentes cidades brasileiras, fez uma longa excursão pela França e volta a ser apresentada pelo Grupo XIX de Teatro na Vila Maria Zélia, onde também pode ser visto a mais recente criação da trupe, Hygiene. O Fingidor, peça de Samir Yazbeck, Prêmio Shell de autor em 1999, estreou há seis anos com ótima recepção de público e crítica. Com o mesmo elenco, direção e concepção volta ao cartaz a partir de hoje no Tuca. Em Hysteria os homens ficam numa arquibancada enquanto as mulheres sentam-se em bancos, junto às atrizes. A partir de uma pesquisa realizada nos arquivos do hospital psiquiátrico Pedro II, no Rio, o grupo recriou a história de cinco mulheres internas sob o diagnóstico de histeria. Aos poucos, o espectador vai se dando conta de que a ´loucura´ de tais mulheres tem uma origem comum: elas não se enquadraram nos rígidos padrões de comportamento feminino da época. Com muita delicadeza, por meio de fragmentos de lembranças ou de pequenas ações dessas mulheres, elas revelam suas vidas e abrem brechas para a identificação do espectador. Hygiene, o mais recente trabalho do grupo, em cartaz no mesmo local, nasceu de outra pesquisa histórica, desta vez sobre o processo de eliminação dos cortiços em nome da ´higienização´ da cidade, num período de fortes transformações no espaço urbano. Hélio Cícero é o intérprete de Fernando Pessoa em O Fingidor, um belo texto de Yazbeck, também diretor da montagem. Não se trata de uma biografia do poeta português, mas sim de uma ficção construída pelo autor. Nessa peça, Pessoa se disfarça de datilógrafo e vai trabalhar a serviço de um crítico literário (Douglas Simon). Este prepara uma conferência sobre a obra do poeta, pelo qual tem profunda admiração. Como se sabe, Pessoa só publicou um livro em vida e seu valor foi reconhecido ao longo dos anos, depois de sua morte. Pois bem, não sendo figura pública, não é reconhecido pelo ´patrão´, que aprova o seu trabalho. Até o momento em que o datilógrafo mostra algumas poesias de sua lavra para o crítico, que não reconhece valor nelas. "Acho uma peça relevante na discussão que provoca sobre o papel do artista sobretudo no mundo de hoje, em que a busca pela visibilidade parece ser mais importante do que a busca pela qualidade." O Fingidor. 100 min. 12 anos. Tuca (672 lug.). R. Monte Alegre, 1.024, 3670-8455. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19h. R$ 30. Até 7/5. Reestréia amanhã Hygiene. 90 min. 16 anos. Vila Maria Zélia. R. dos Prazeres, 362, Belenzinho. Dom., 16 h. R$ 10. Reservas 8283-6269. Até 27/5. Reestréia domingo. Recomendada Hysteria. 90 min. 16 anos. Vila Maria Zélia. Sáb., 16 h. R$ 10. Até 27/5. Reestréia amanhã. Recomendada

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