Humores da boa e da má alegria

O exame minucioso de um estado emocional moldado ao longo de épocas distintas

Elias Thomé Saliba, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

O poeta Adam Zagajewski não acreditava na felicidade, mas sim na alegria. A felicidade serviria apenas para o the end dos filmes, "enquanto a alegria é uma iluminação, bênção, uma visita: no século 21, requer nada menos do que uma crença nos anjos". Este paradoxo é o mote para o historiador Adam Potkay em A História da Alegria, estudo dos modos como a alegria foi tratada na literatura, na arte, na religião e na política.

Não faz muito tempo que os historiadores perceberam que emoções e paixões são elementos mutáveis, nômades e culturalmente inventados. Potkay demonstra como a alegria é um estado emocional moldado por um patrimônio de diferentes histórias que contamos sobre ela. Ele afirma inspirar-se, de forma oblíqua, na crítica filológica inaugurada por Nietzsche e no universo dos românticos ingleses, mas vai além, movimentando-se pelos terrenos da história cultural.

O resultado é um caleidoscópio de todas as metamorfoses da alegria ocidental, a partir da primitiva alegria inefável dos humanos de transcender o mundo e reencontrar a alegria dos deuses; passa depois pelo colorido educacional e cívico da alegria, tal como na cidadela de Aristóteles; já no impulso erótico dos trovadores, ela vira fetichismo daquilo que é eternamente inatingível. O autor analisa ainda a guinada da reforma protestante, que definiu a alegria como fruto contingente da graça, forjando ansiedade em relação a ela.

Potkay mostra como os dicionários optaram por dar sinônimos em vez de analisar o termo, retornando aos cartapácios ingleses dos séculos 17 e 18, que optavam pela simplicidade da definição de Locke: "A alegria é um deleite da mente diante da consideração de um bem presente ou que certamente se avizinha." Essa definição inaugura uma forte tradição do discurso iluminista sobre a alegria - um estado que necessita de um enquadramento ético dado por outra noção, a de felicidade. Neste caso, a alegria associa-se ao exercício e à contemplação das virtudes, como justiça, generosidade e solidariedade.

Mas, também aí, ela se bifurca em variantes na tradição judaico-cristã, pela definição de "alegrias más": "Se teu inimigo cai, não te alegres, e teu coração não exulte se ele tropeça." Essa forma de alegria tem força imperativa. Quando todos entoam o We Are the Champions, demonstram a alegria pela vitória de um grupo. É também aquela alegria que esconde um convite indireto do tipo "junte-se a nós ou entristeça".

Na ressaca do ceticismo pós-moderno, surgem modos de experimentar alegrias que desconfiam de qualquer teologia sacra ou secular. E Potkay analisa tanto aquelas alegrias de fundo trágico - que afirmam os valores humanos que redimem a vida - quanto as alegrias indescritíveis. Com o que, afinal, nos alegrar? Nesses dois últimos modos de alegria, o autor vislumbra resposta. Mas se nenhuma for possível, restará a esperança daquela iluminação de que nos falava o poeta.

Elias T. Saliba é professor da USP, autor de raízes do riso (companhia das letras)

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