Humor refinado marca romance

O romance Agência n.º 1 deMulheres Detetives é um caso raro dentro do gênero. Seu autortem um humor ultra-refinado, o que não é tão incomum entre seuspares, mas não está nem um pouco preocupado em construir umaprotagonista que se destaque pelas conclusões mirabolantes - que normalmente, dependem de uma justaposição de pistas e detalhesque têm de ser escondidos dos leitores. O forte do livro não são as conclusões de sua MissMarple, mas o tom cômico e, às vezes, até singelo como osproblemas surgem e vão sendo pouco a pouco resolvidos. Há umatrama que percorre dois terços da obra, que é a do menino quesome, mas, no geral, os problemas de Mma Ramotswe são os docotidiano. E eles são narrados como se fossem contos, em que elatem de resolver os casos o mais rapidamente possível, para pagaras contas de sua agência e manter-se viva, podendo depois dissodeixá-los para trás. Nesse sentido, ela talvez seja mais realcomo detetive do que a maioria dos já criados para preencher aspáginas e páginas de obras do gênero. McCall Smith se destaca também pela linguagem leve, quebeira o infantil. Brinca o tempo todo com o gênero policial, como comportamento masculino, com os julgamentos de Mma Ramotswe,com o preconceito contra o fato de ela ser uma mulher, com aspersonagens que ela conhece, com as idéias simples que dominam odia-a-dia de um país encravado no meio da África. Um humor e umtexto que lembram muito Luis Fernando Verissimo, porque sãocapazes de lidar tanto com grandes questões e com a pura enecessária escatologia, quase no mesmo tom, mas semprerespeitando o ser humano. Se o tom politicamente correto às vezes incomoda, épreciso perceber que o "bom mocismo" do autor ajuda até adeixar as coisas mais engraçadas. Por isso, é possível defenderque Agência n.º 1 de Mulheres Detetives e suas crias vãosobreviver a esse discurso, justamente porque seu autor não selimita a ele. É mais ou menos o que acontece com Júlio Verne: emCinco Semanas num Balão, ele, hoje um clássico das históriasde aventura, coloca seus heróis europeus, imperialmente,confundindo africanos com macacos. Um detalhe que provoca náuseanos bons leitores de hoje. Mas o livro não é só isso, emboradependa disso. Quando nos deparamos com trechos assim, há sempremais de uma opção: tapar o nariz e seguir em frente é uma,sentir o cheiro e localizá-lo no tempo é outra.

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