Humor mais contido é que faz a graça

Dona Xepa da Record começa com cenas didáticas, falas cômicas sem exagero e muitos acertos na questão técnica

JOÃO FERNANDO, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2013 | 02h11

Sucessora do humor e das cores exageradas de Balacobaco, que terminou na segunda-feira, Dona Xepa tem tudo para ir bem, justamente por ser mais contida nas caras e bocas dos personagens. A nova trama da Record, cuja adaptação é assinada por Gustavo Reiz, pega mais leve nas cenas cômicas e tem cenários mais críveis do que produções anteriores da emissora.

O primeiro capítulo, exibido na terça, começou de maneira didática ao mostrar imagens de São Paulo em time-lapse e com capricho estético - que a direção encomendou a uma produtora. Na sequência, Dona Xepa (Ângela Leal) desperta de madrugada para ir à Ceagesp para abastecer sua barraca e percebe que a filha Rosália (Thaís Fersoza), que a renega, não está em casa. Aí está uma das dissonâncias.

A protagonista está na medida ideal, principalmente pelo jeito de mulher com pouca instrução e os deslizes no português. Carioca, Ângela Leal conseguiu reproduzir um sotaque paulistano sem cair na caricatura e imprimiu a mesma voz grave e exaltada que lembra o jeito de Yara Cortes, intérprete de Xepa na versão exibida pela Globo em 1977, também inspirada na peça homônima de Pedro Bloch. Na contramão, Thaís Fersoza faz uma vilã alguns tons acima do necessário, com caretas e em momentos em que conversa com ela mesma.

Em seguida, são apresentados os outros núcleos ricos, que vão se interligar com o universo da feirante com o passar do tempo. A casa do deputado Feliciano (Giuseppe Oristânio), em que o político divide com sua mulher, Pérola (Angelina Muniz), ambos com boa performance, contrasta com a de Meg Pantaleão, uma subaproveitada Luiza Tomé, e Júlio César, um inexpressivo Maurício Mattar. Deslumbrada com a própria riqueza, Meg faz piadas com pouca graça e frases prontas ao falar com sua assistente e o filho, Vitor Hugo (Márcio Kieling), prestes a se casar com Isabela (Gabriela Durlo), herdeira de sua rival, Pérola.

Apesar dos diálogos precisos, com destaque para os personagens da feira, os acertos da novela se dão na parte técnica. O fictício bairro da Vila do Antigo Bonde, onde Xepa e seus vizinhos moram e trabalham, não tem cara de cenário. A direção de arte também se superou ao construir o interior das casas. Ao contrário de tramas anteriores da emissora, em que os objetos de cena parecem ter sido pinçados de lojas de decoração, houve cuidado em deixar os ambientes com o jeito dos personagem, como se cada deles um fosse responsável pelo design.

É possível perceber ainda um bom trabalho na maneira como a câmera mostra o encontro dos personagens. Há preocupação em mostrar alguma beleza nos enquadramentos, até mesmo nas inúmeras sequências em que o elenco jovem mostra o corpo em cenas de beijos calientes ou em amassos na cama, mais comportados do que o horário das 22 horas permite. Outro ponto positivo da estreia foi a escolha da trilha, que inclui Arnaldo Antunes, Mutantes e Demônios da Garoa.

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