Humor é trunfo de 'Alô, Dolly!'

No palco, também ajuda o espectador a identificar melhor a característica de cada personagem

O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2013 | 02h10

O humor é elemento essencial em um musical, pois alivia o balanço entre canções e texto falado. No cinema, os filmes dos irmãos Marx representam um exemplo clássico: as músicas ajudavam a suavizar o turbilhão de piadas proferido pelos comediantes. No palco, também ajuda o espectador a identificar melhor a característica de cada personagem. O humor torna-se ainda mais importante quando o elenco de um musical é formado por profissionais do ramo.

É o caso de Alô, Dolly!, em cartaz no Teatro Bradesco. Marília Pêra vive a protagonista, uma casamenteira da Nova York do início do século passado que, entre outros matrimônios, prepara o próprio com um ricaço caipira, Horácio Vandergelder, interpretado por Miguel Falabella. Mesmo o mais fanático por musicais, aquele que se inebria com as canções, acaba se rendendo ao talento humorístico da dupla.

Uma cena é fundamental e se destaca como a melhor do espetáculo: em um jantar com Horácio, Dolly trava um diálogo maluco em que distorce as próprias palavras e as transforma em um pedido de casamento sem que o próprio homem abra a boca. Utilizando ligeiramente os braços e muito de seus plenos recursos vocais, Marília Pêra transforma a cena em um momento antológico.

Próximo dos 70 anos, a atriz, aliás, continua esbanjando talento, explorando cada detalhe da casamenteira que, embora trambiqueira, fatura rapidamente a confiança do público. Pelo mesmo caminho trilha Falabella: seu humor já se tornou peculiar, marca registrada, especialmente quando interpreta tipos mal-humorados. E, ao lado de Marília, torna-se ainda mais vivo, graças ao embate entre dois personagens vivaldinos.

Como musical, Alô, Dolly! tem altos e baixos. Se Marília e Falabella revezam ternura e comicidade em seus solos (ela num tom mais operístico, ele facilitado pelos graves), o restante do elenco oscila. Alessandra Verney traz suavidade a Irene Molloy, uma das pretendentes de Horácio, especialmente pelo timbre vocal. Ela forma par com Frederico Reuter, que vive Cornélio Hackl, moço também caipira, funcionário do ricaço rabugento. Perfeito nas canções, ele apenas derrapa em alguns momentos na forma como interpreta Cornélio, buscando uma mistura de linguajar caipira com mineiro que soa falso. O mesmo acontece com seu parceiro cômico, Ubiracy Paraná do Brasil, que vive Barnabé Tucker.

O momento mais crítico, no entanto, reúne os garçons do restaurante onde acontece boa parte das cenas do segundo ato. Se o maître, vivido por Ricardo Pêra, enfrenta com galhardia o papel vivido por ninguém menos que Louis Armstrong no cinema, seus assistentes abusam da gesticulação e do requebro, atitude sem graça e que nada lembra os garçons de A Gaiola das Loucas.

Um ponto alto são os cenários de Renato Theobaldo e Roberto Rolnik, elegantes e extremamente versáteis, o que facilita a produção; e também a quase centena de figurinos criados por Fause Haten, sofisticados, eficazes, comprovando cada vez mais que os musicais são seu caminho natural.

Crítica: Ubiratan Brasil

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