Humor e neuroses na peça 'Meninas da Loja'

Primeira peça do quadrinista Caco Galhardo nasceu da observação das vendedoras de lojas da Rua Augusta

28 de maio de 2010 | 05h00

Ensaio mostra vendedoras sentadas na calçada, desfiando rosário de acusações e lamentos. Foto: Epitácio Pessoa/AE

 

Maria Eugênia de Menezes - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Todo dia, Caco Galhardo faz tudo sempre igual. Ou quase. Sai de casa pela manhã e caminha seis quadras até o estúdio em que cria as suas histórias em quadrinhos. No trajeto, observa as vendedoras da Rua Augusta. Uma legião de moças em estado de espera, aguardando a abertura das lojas para mais um dia de trabalho. A situação é aparentemente prosaica, mas foi aí, na trivialidade do cotidiano, que o cartunista encontrou o mote para sua primeira incursão pelo teatro.

 

Em Meninas da Loja, peça que inicia temporada hoje no Espaço Parlapatões, Galhardo trocou a familiaridade do universo das HQs, no qual atua há quase 15 anos, pelo risco do palco. "Queria fazer outra coisa e esquecer um pouco a lógica das tiras, que é algo que já domino", diz o dramaturgo estreante. "É claro que existe uma linguagem próxima, mas acho que consegui fazer algo diferente, longe do pastelão."

 

De fato, o que se vê em cena pouco ou quase nada evoca da comicidade rasgada de suas criações mais célebres, como Chico Bacon e os Pescoçudos. Sob a condução da diretora Fernanda D’Umbra, Meninas da Loja acaba batendo à porta de um humor mais calcado na ironia e na acidez dos comentários de suas personagens, funcionárias de uma sapataria.

 

Cynthia Falabella interpreta uma jovem vendedora que, à base de ácido, atravessa a noite em claro e vai direto da balada para o trabalho. A seu lado, surgem Camila (Chris Couto), mulher em constante crise com a namorada, e a gerente Verô (Martha Nowill), uma socialite decaída que, após perder o marido rico, precisa trabalhar para sobreviver. Para arejar o quarteto, o autor convoca a faxineira Dulce (Mari Nogueira)- mais serena e debochada que as demais. Mas não menos cínica.

 

A plateia encontrará as quatro sentadas na calçada, desfiando um rosário de acusações e lamentos. Sem as chaves, estão impedidas de entrar na loja onde trabalham e, em vão, aguardam a chegada do proprietário que deveria abrir as portas. "Existe um vazio imenso aí. Não queria escrever um texto para tratar de algo épico, grandioso, mas desse tipo de neurose urbana que percebia naquela situação", comenta Galhardo sobre a falta de sentido em que essas mulheres estão mergulhadas.

 

Ainda que de forma indireta, a situação carrega os ecos dos vagabundos de Esperando Godot. Tal como no mais conhecido texto de Beckett, a espera por algo que não chega e não se concretiza move a trama. Em Meninas da Loja, porém, essa noção de esterilidade e desamparo adquire ares menos metafísicos.

 

Não estão mais em questão os impasses do pós-guerra, mas a ausência de significados que pauta a sociedade de consumo e o novo mundo do trabalho. Outra diferença essencial quanto ao clássico de Beckett é a relação que se estabelece entre as personagens. O medo da solidão persiste, mas o vínculo com o outro já não mais se coloca como possibilidade.

 

Uma noite. O tema pode até resvalar em "grandes" questões, mas o texto de Galhardo não perde a sonoridade quase coloquial e foi escrito em uma única noite. "A inspiração veio de pessoas que conhecia, de cenas e situações reais."

 

Como contraponto à narrativa naturalista, Fernanda optou por "brincar com as convenções". No cenário minimalista de Simone Mina, a encenadora fez intervenções com a luz e o som que ajudam a criar uma aura nonsense. "É uma peça muito estática. Tudo se passa ali, enquanto as mulheres estão sentadas na rua. O espectador assiste, em tempo real, a uma espera que não resulta em nada."

 

Em cartaz também com Confissões das Mulheres de 30, a diretora prefere assinalar que, ainda que trate dos conflitos de quatro mulheres, Meninas... não é uma crônica de questões femininas nem é destinada apenas a esse público. "A histeria hoje não é mais um privilégio das mulheres. A peça surge como um retrato de quatro pessoas comuns massacradas pelo cotidiano."

 

Meninas da Loja - Espaço Parlapatões (98 lugares). Praça Franklin Roosevelt, 158, telefone: 3258-4449, Consolação. 5ª, 21 h; 6ª, 21h30. R$ 30. Até 2/7

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