Humor da Rússia fragmentada

Ao mostrar soviéticas em busca da prosperidade em outro país, Casting revela a sensação de derrota do comunismo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

A derrocada do comunismo no início da década de 90 não trouxe apenas perdas econômicas ao antigo império soviético - a autoestima também saiu arranhada. O detalhe não escapou ao dramaturgo russo Aleksandr Gálin, autor da peça Casting, que estreia hoje no Sesc Vila Mariana.

O texto foi inspirado em uma história real: convidado para um evento no teatro Taganka, em Moscou, ele se surpreendeu ao notar que dois japoneses (acompanhados de um intérprete) assistiam a um desfile de mulheres seminuas no palco. Era um teste, mas não para uma peça - as escolhidas iriam trabalhar no Japão, certamente em um subemprego. "Olhei para trás e vi, na última fileira, algumas mulheres com ar triste. Não foram aceitas no concurso porque (infelizmente!) não eram jovens", conta ele, em depoimento colhido pela produção do espetáculo.

Foi uma dura constatação: de cidadãos de uma antiga superpotência, os soviéticos tinham se transformados em "mercadorias" e ali, naquele triste espetáculo no palco de um teatro lendário (foi o primeiro centro artístico a se revelar contra o totalitarismo), a miséria dos "derrotados" era exposta em desfile.

Foi movido por tal sentimento de revolta e compaixão que ele criou a trama de Casting: atraídas por um anúncio de jornal, que pedia candidatas para um show a ser montado em Cingapura, um grupo de mulheres (interpretadas por Aline Moreno, Bete Dorgam, Bia Toledo, Nani de Oliveira, Natalia Gonsales e Selma Luchesi) tenta participar da seleção. De diferentes idades e feições físicas, elas logo descobrem, porém, que o show organizado por um japonês (Ricardo Oshiro) é erótico e nada artístico. "O mais incrível é que, mesmo assim, elas preferem, no início, participar do espetáculo, pois o trabalho em Cingapura revela-se melhor opção que continuar no próprio país", comenta Marco Antonio Rodrigues, diretor da montagem.

Ele conheceu a peça há oito anos, quando viu, com a atriz e produtora Joana Mattei, a versão alemã, em Berlim. Logo percebeu a proximidade do humor russo com o brasileiro: a alegria prevalecendo sobre a dor, a sensação de a felicidade estar em outra terra, a eterna busca de uma solução para seus problemas. Empolgado, saiu à caça dos direitos autorais, só conseguindo anos depois, quando, em sua segunda visita a Moscou, conheceu pessoalmente o autor. Em seguida, amparado pelo produtor Alexandre Brazil, enfrentou o habitual e tortuoso processo da busca de patrocinadores até que, finalmente, a peça pudesse ser montada.

Competição. "Fiquei surpreso quando li o texto e descobri aquele senso de humor direto, cru", comenta o ator Caco Ciocler, que vive Albert, o intérprete do produtor japonês. Comovido com a situação das mulheres que tentam participar do concurso, ele evita informá-las de que estão fora de competição, seja por conta da falta de beleza artística das mais velhas, seja pela falta de passaporte das mais novas. "Acabei mudando minha visão sobre a Rússia, que eu julgava ser apenas um país soturno."

Segundo Caco, no início dos ensaios, o humor era mais acentuado, especialmente as piadas violentas, bem ao gosto dos russos. "Mas logo o Marcão ressaltou a face sentimental." De fato, o encenador, célebre por conhecer a fundo seu ofício, destacou a herança de Chekhov e seus desesperançados.

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