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Humilhados e ofendidos

Disparou a ansiedade da queda social e da perda de pequenas conquistas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2018 | 02h00

Os amantes do escritor Fiódor Dostoiévski reconheceram, de imediato, o título da crônica. É uma alusão ao romance de 1861. No tumultuado ano de libertação dos servos pelo czar, o autor russo lança um dos seus primeiros grandes textos. Em um mundo de mudanças sociais intensas, surgem vilões terríveis como o príncipe Valkovsky ou a proxeneta Madame Bubnova, inescrupulosos, quase caricatos. Do outro lado, as pessoas falidas sobrevivendo no pântano da miséria e lutando com poderes maiores e terríveis. Iván Petróvich (Vania) é o escritor fracassado e perto do desespero, retrato mais ou menos biográfico de Dostoiévski. Não narro mais, pois a obra merece sua leitura e julgamento. 

No padrão da pena do autor de Crime e Castigo, os valores morais e o imperativo categórico da sobrevivência dialogam de forma densa. Os que humilham, os que ofendem, são intrinsecamente maus e muito arrogantes. Eles sabem usar a necessidade de alguém para obter favores materiais ou pessoais. A miséria é uma mancha que fragiliza, ainda que exista luta e resistência dos de baixo. Se você se dispuser a ler Humilhados e Ofendidos, bem como Crime e Castigo e os Irmãos Karamázov, sua compreensão de humanidade dará um salto qualitativo e sua inteligência ficará mais atilada. Confie em mim: o autor russo consegue, em poucos meses de leitura, superar muitos danos das redes sociais ao seu cérebro. 

Talvez a tensão social e a consequente dor das humilhações cresçam em meio a uma grande mudança como a Rússia pós-servidão. Muita gente que, ao menos do ponto de vista jurídico, deixa de ser apenas uma mão de obra para se tornar um súdito, em teoria, representa uma expansão quantitativa da ideia de ascensão social. Sabemos que a miséria continuou intensa entre os súditos dos czares, porém identifico um degrau, pequeno, de aumento da aspiração de igualdade. A Rússia, tal como a China Continental, nunca experimentou, de verdade, um período de liberdade democrática. Do absolutismo teocrático czarista, o povo russo passou ao estado totalitário soviético. O atual governo Putin não chegou a representar uma “primavera eslava”, como todos sabemos. A ausência quase total de chefes de Estado e de governo nas tribunas de honra da Copa na Rússia foi um retrato eloquente de que o gás russo interessa a muitos, mas fotos ao lado de Putin, bem menos. Há muitos anos, um aluno me perguntou se os chineses sentiam falta de liberdade e eu me pus a refletir se podemos sentir necessidade de algo que nunca experimentamos. Posso dizer, com segurança, que os chineses sentiam falta de arroz e isso foi, de algum modo, suprido. Os russos sentiam um déficit de prestígio e força, uma sensação de traição de governos como Gorbachev que foi considerado um “criminoso” por muitos cidadãos daquele imenso país. O atual governo parece ter restaurado a voz russa no cenário global. 

A liberdade é um valor secundário diante da fome. Todos nós, queridas leitoras e estimados leitores, abriríamos mão de coisas como habeas corpus ou pluripartidarismo se o ronco do estômago indicasse outra demanda urgente. Um prato de comida vale mais do que um voto na urna. Muitos brasileiros sugerem o abandono da nossa claudicante democracia para reforçar sensações de segurança diante da quase Guerra Civil que vivemos nas ruas. O medo sempre foi explorado por governantes, e o demagogo, desde a Grécia, precisa do ressentimento acovardado das massas para cumprir seu desiderato de ser aquele que conduziria o povo pela mão para um paraíso. 

Houve um evidente aumento de renda em classes baixas na primeira década do século 21. Os dados são fortes. Artigos considerados antes de luxo, como frango e iogurte, chegaram a classes como D e E. O avião popularizou-se. Os destinos turísticos lotaram com mais diversificação social. 

A distribuição de renda esbarrou na crise econômica lancinante. Grupos de classe média temem a proletarização. Os planos de saúde estão ficando mais caros, as escolas privadas mais inacessíveis e o carro próprio pesa muito. O medo de cair no bandejão das almas populares inclina as classes médias a soluções mais conservadoras e até autoritárias. Usam-se argumentos morais, patrióticos, etc. O medo não é moral, é material. Classes que estavam em discreto processo de ascensão têm outro pavor: a perda do pouco que conseguiram. A ascensão é deliciosa; a queda é aguda, pavorosa. Aumentam ressentimentos sociais. Apartamentos de alto luxo são vendidos com certa rapidez em São Paulo, assim me disseram. Apartamentos muito simples encontram boa acolhida. O topo nunca foi atingido pela crise, a base mudou pouco da sua exclusão histórica, o meio está apavorado. 

A vida foi ficando mais cara e há um processo de gentrificação, nome de origem inglesa (gentrification) para designar a valorização de uma área que acaba expulsando moradores mais simples da região. É provável (entre muitos sentidos) que sejam os processos de valorização que atraiam negócios mais sofisticados e vão tornando mais complicada a vida dos antigos moradores. Muitas vezes, gentrificação é uma modernização excludente, como percebemos nas consequências das reformas urbanas do barão Haussmann, em Paris. 

Aumentaram os humilhados e ofendidos em grande quantidade. Disparou a ansiedade da queda social e da perda de pequenas conquistas. Risco natural: em quem votam os que têm medo? Qual sua agenda política? Qual o modelo que poderia garantir o fim da gentrificação alarmante? Bom domingo para todos nós. 

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