Humano, demasiado humano

Livro defende a ideia de que o poeta é o revolucionário cuja atividade define o homem

CARLOS GRANÉS É ENSAÍSTA, DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE DE MADRI, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h10

CARLOS GRANÉS

O ctavio Paz nasceu no atribulado ano de 1914, quando o século 20 se precipitou na vereda das guerras civis, conflagrações mundiais, revoluções socialistas, tiranias opressivas e conquistas libertárias. Não há dúvida de que ele foi um filho do seu tempo. Desde muito jovem sentiu o chamado revolucionário. A sombra do pai, Octavio Paz Solórzano, um patriarca que enfrentou as tropas de Carranza ao lado de Villa e Zapata, foi uma presença viva. O jovem não podia ser menos do que o pai e por isso seu olhar sempre se direcionou para este horizonte: a mudança, a transformação, a criação de uma sociedade renovada e de um homem novo.

Mas, diferentemente do pai, Paz nunca pegou em armas. Nem mesmo na Espanha, para onde partiu em 1937 para combater Franco e o fascismo, quando havia publicado apenas um livro de poemas e não completara ainda os 25 anos. Seu instrumento revolucionário era a escrita. E especialmente a poesia porque, para ele, o poeta antes de mais nada é sempre um revolucionário.

Seu espírito rebelde manifestou-se muito cedo. Aos 15 anos já participava de manifestações e protestos universitários e pulsava dentro dele o inconformismo que o converteria num intelectual comprometido com o seu tempo. Aos 20 anos, sonhava com um mundo em que a poesia se diluiria na vida e não seria necessário escrevê-la, porque todos os atos humanos teriam se convertido em poemas. O primeiro tema que abordou em profundidade como ensaísta não teve nada a ver com a revolução, mas com a "mexicanidade", com o ser nacional de um país que, com sua história de conquistas e destruições, parecia ter ficado ausente do curso da história e ainda não fora expressado por meio da palavra.

Em El Laberinto de la Soledad (O Labirinto da Solidão), de 1950, Paz assumiu esse desafio, convencido de que o dever do poeta era falar do México, submergir nas suas entranhas para resgatar aquele elemento imaterial que lhe conferia autenticidade. Somente quem chegasse ao âmago da intimidade mexicana poderia condensar em uma imagem ou metáfora o ser nacional. E não apenas isso. Essa imagem teria uma força libertadora. Expressaria o sonho do homem e revelaria um ideal que suscitaria o desejo de rebelião. Depois de ouvir o poeta, ninguém se conformaria a uma vida que não estivesse à altura dos seus sonhos.

O Arco e a Lira, publicado em 1956, foi seu segundo ensaio. Nesse livro, Paz mudou a ênfase do problema. Agora, sua preocupação não era a criação de uma identidade nacional, mas do ser humano em geral. Seus horizontes se expandiram. Califórnia, França, Índia, Japão, Suíça; começou sua transumância pelo mundo. Seu espírito se fazia cosmopolita e sua curiosidade ultrapassava as fronteiras geográficas e disciplinares. O México deixou de ser o centro exclusivo de seus interesses. O poeta, nos seus 30 anos, começou a se deslumbrar com as tradições literárias do Oriente, as correntes antropológicas, a linguística, a história e a filosofia; nenhuma ideia relevante, nenhuma criação artística de importância o deixavam alheio ou indiferente. Agora estava preparado para abordar um problema universal, pronto para desentranhar o poder criador do ser humano e o que, no seu julgamento, era o fruto por excelência desse impulso: a poesia.

Esse é o grande tema de O Arco e a Lira, peça fundamental na obra ensaísta de Octavio Paz. Aqui o poeta alça voo. Já não está enraizado no México nem em algum outro lugar reconhecível. O espaço em que se move é a mente humana e seu poder para definir e transformar o homem e o mundo. A ideia central do ensaio é tão contundente quanto ambiciosa: a poesia não é um mero entretenimento estético nem um jogo verbal sem repercussão no mundo; a poesia é a atividade criadora que "faz o homem".

Octavio Paz não poderia fazer uma afirmação tão arriscada sem a influência de José Ortega y Gasset. Uma das ideias fundamentais do filósofo espanhol era exatamente esta, o ser humano não tinha natureza, mas história. O que era o homem? Um conjunto de ideias e definições que num determinado momento e lugar persuadiria a maioria. Por essa razão, o ser humano mudava e vivia de maneiras tão distintas. Bastava uma nova definição para a mudança se produzir. Para Octavio Paz, essa era a razão de ser da poesia. O poeta era aquele que em todos os tempos havia dado forma ao ser humano. No início da civilização ocidental, ali estavam os bardos gregos para configurar um mundo heroico e dirimir os conflitos entre a liberdade e o destino. Cervantes inventara o espírito moderno, dotando-o de humor e ironia. Os surrealistas democratizaram o gênio e a inspiração, atribuindo-os a forças inconscientes. Da mesma maneira que a religião e a magia, a poesia tinha o poder de inventar ficções que se tornavam realidades. O poeta era o revolucionário que fazia com que seus semelhantes experimentassem vidas novas e melhores.

A animosidade que manifestou na sua juventude pela burguesia capitalista nasceu de outra das suas grandes influências: André Breton e a vanguarda surrealista. Diferente de outros tempos, o mundo burguês condenara o poeta à insignificância. Em vez de abrir espaço para a magia e o desejo, ele onerou a vida com compromissos e deveres. Nessa época cinzenta o poeta não tinha outro recurso senão ser um revolucionário. Precisava abrir um canal que derramasse o conteúdo irracional dos sonhos na vida cotidiana para transfigurar a realidade. Paz conheceu Breton em 1946 em Paris, ano em que foi diplomata na França. Também frequentou toda a seita de renegados que engrossou as fileiras do surrealismo: Aragon, Péret, Desnos, Éluard. Com eles aprendeu o valor revolucionário da fantasia. Se o poeta conseguisse fazer com que as pessoas sonhassem, ele se tornaria então um mestre existencial abrindo as portas para uma vida mais entusiasta e maravilhosa, sem restrições nem contradições, fundamentada no mais puro princípio de liberdade. A mensagem surrealista da qual se apoderou era clara: o poeta não apenas criava o ser do homem, também o libertava das servidões que empobreciam a sua existência.

Foi essa paixão libertária de Octavio Paz que, pouco a pouco, e não sem dilacerações e vacilações, o afastou do marxismo e do comunismo, até ele se converter num tenaz opositor da União Soviética e da Cuba de Fidel Castro. Como Breton, que viveu na própria carne as pressões do Partido Comunista Francês, Paz desencantou-se com as tiranias da esquerda. Nas quais ele não via o triunfo do socialismo, mas do marxismo. O desencanto com a utopia forçou-o a mudar suas ideias. Renunciou à ortodoxia marxista e até o fim dos seus dias tentou reconciliar a liberdade e a justiça. Sem abandonar a profunda simpatia pela revolução e os revolucionários, ele acabou se definindo como um liberal de esquerda ou um social democrata convencido da importância da liberdade individual.

O Arco e a Lira é um dos melhores testemunhos da inteligência, da perspicácia e da deslumbrante bagagem cultural de Octavio Paz. É verdade que algumas das ideias fundamentais desse livro começam a ser refutadas - em especial a suposta ausência da natureza humana, que psicólogos cognitivos como Steven Pinker rejeitam com base nos novos descobrimentos da genética, da neurologia e das ciências evolutivas - e o horizonte cultural de algumas das suas proposições sofreu um desgaste com o tempo. Ainda assim, é fascinante ver como o seu pensamento se desenvolve a cada frase, cada parágrafo, até arrebatar o leitor e convencê-lo a aceitar seu argumento. No mundo de língua espanhola, dificilmente outro intelectual transitou com tanta desenvoltura pelos textos clássicos de todas as civilizações, pela tradição filosófica ocidental, pelo passado pré-hispânico da América Latina e por todas as ciências sociais sem perder contato com os debates fundamentais do seu tempo.

Porque essa é a outra faceta de Octavio Paz, a do intelectual comprometido com o presente e a atualidade política, que, a partir das muitas revistas que fundou - Barandal, Cuadernos del Valle de México, Taller, El Hijo Pródigo, Plural, Vuelta -, examinou todas as ideias, tendências estéticas e acontecimentos do México e do mundo. No momento da sua morte, em 1998, Octavio Paz se tornara uma referência ineludível no mundo intelectual hispano-americano. O Prêmio Nobel de Literatura que recebeu em 1990 foi uma justa recompensa pelo seu enorme esforço intelectual.

Ler O Arco e a Lira hoje, 56 anos depois da sua primeira edição, é uma experiência tão agradável quanto perturbadora. É impossível não pensar que os tempos em que grandes intelectuais abordavam temas de tanta transcendência com o afã avassalador de Octavio Paz acabaram. Onde estão os novos escritores que poderiam competir em sabedoria, curiosidade ou universalidade com o poeta mexicano? Quem pode se vangloriar de ter conhecimento dos debates contemporâneos e ao mesmo tempo de todas as grandes obras do passado? Talvez, se continuarmos editando, traduzindo e lendo Octavio Paz, seu voraz apetite pela cultura e o seu intelecto seduzam algum jovem leitor, do mesmo modo que Orfeu seduziu Eurídice ao tocar sua lira. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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