Sergio Neves/AE
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Huizinga divide mestres

Discussão sobre O Outono da Idade Média provoca revisão do clássico livro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Até o compositor norte-americano Cole Porter (1891-1964) foi evocado no debate promovido anteontem pela Cosac Naify em parceria com o Sabático sobre o livro O Outono da Idade Média, do historiador holandês Johan Huizinga. Mediado pelo editor do caderno, Rinaldo Gama, o debate reuniu no anfiteatro do Departamento de História da USP o crítico e professor Lorenzo Mammì e os professores de História Marcelo Candido da Silva e Tereza Aline de Queiroz. Porter, aliás, foi lembrado pela professora, que abriu o debate comparando a visão romântica de Huizinga sobre o passado com a de Cole Porter, que teria composto Night and Day após visitar o mausoléu da imperatriz Galla Placidia (386-452) em Ravena, belíssima construção em forma de cruz latina em que o exterior sóbrio contrasta com a atmosfera noturna dos mosaicos coloridos do interior, representando a vitória da vida eterna sobre a morte.

Huizinga, lembrou a professora Tereza Aline, dizia que o historiador é um "ressuscitador do passado". Para ela, mais que isso, o autor holandês parecia mesmo "ter aversão ao presente", o que pode indicar uma visão romantizada do que foi a desagregação do sistema feudal que conduziu a Europa para a Reforma e a era moderna. Para ilustrar sua observação, a professora projetou diversas pinturas do simbolista Jan Toorop (1858-1928), amigo de Huizinga que influenciou não só a visão estética do historiador com sua obsessão pela morte e transcendência, mesmo tema do mausoléu de Galla Placidia. "Toorop se interessava pela mitologia medieval do cavaleiro e da espada e foi construindo a memória visual de Huizinga", observou a professora, destacando ainda a importância para seu imaginário da exposição de pintura flamenga dos séculos 14 a 16 em Bruges, realizada em 1902, que teria impressionado o historiador a ponto de escrever O Outono da Idade Média.

Foi a necessidade de entender a pintura dos irmãos Van Eyck que levou Huizinga a examinar a Idade Média, vista antes dele apenas como um período intermediário entre a Antiguidade e o Renascimento. Cobrindo um período relativamente curto (de 1350 a 1480), seu livro destaca a força do pensamento simbólico no ducado de Borgonha, levando ao beco sem saída da alegoria que desembocou na associação com a decadência dos aristocratas. Para ele, Van Eyck e seus seguidores, embora refinados, refletiriam uma cultura em declínio.

Para o crítico Lorenzo Mammì, Huizinga é incontornável também por ter inspirado outros historiadores que passaram a ver o Renascimento de outra forma. Mammì citou o crítico alemão Erwin Panofsky (1892- 1968), o primeiro a interpretar o simbolismo do retrato do casal Arnolfini, de Jan Van Eyck, que está na National Gallery de Londres. Panofsky, segundo Mammì, tinha dúvidas sobre a tese de Huizinga, que associou a pintura flamenga à decadência do ducado de Borgonha.

Referindo-se aos estudos de Burckhardt sobre o Renascimento, o crítico lembrou que a tese do historiador suíço defendia a existência de um diálogo entre a pintura flamenga e italiana. Mammì projetou a tela O Casal Arnolfini de Van Eyck, mostrando a seguir A Ressurreição de Cristo, de Fra Angelico (1387-1455), comparando este último a uma tela em que o flamengo Van der Veyden (1400-1464) retrabalha a obra do italiano para provar essa aproximação. A diferença, segundo Mammì, é que a concepção espacial de Fra Angelico é idealizada, platônica, enquanto na pintura de Van der Veyden o espaço idealizado se confunde com o real, ainda que conservando suas referências simbólicas.

Para ao professor Marcelo Candido, Huizinga é um historiador de difícil classificação. Tido como o pioneiro da história cultural, o holandês não pode ser enquadrado justamente em função de sua singularidade. "Ele se ocupa do indivíduo, enquanto outros historiadores se ocuparam do coletivo", observou Candido. O debate foi seguido pela participação do público e uma recomendação da professora Tereza Aline: quem quiser ver algumas das pinturas que impressionaram Huizinga, na exposição de 1902, deve ir a Paris e visitar a mostra France 1500 (até 10 de janeiro, no Grande Palais). "Diria que 90% das obras que estão lá são góticas."

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