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Hugh Jackman estrela peça mais concorrida da Broadway

Ator interpreta dois personagens extremos em musical: um viril e outro delicado

BEN BRANTLEY, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h09

São necessários dois para ser Hugh. O mais adorado intérprete na Broadway no momento é Hugh Jackman, ou dois dele. Hugh Jackman: Retorno à Broadway, no Broadhurst Theater, provocou a febre de bilheteria mais concorrida desta temporada, onde Hugh faz papel duplo, algo que Nova York não via desde que Alice Ripley e Emily Skinner interpretaram os irmãos siameses em Side Show, há 14 anos.

Você pode objetar, há só um Hugh Jackman. É aquele ator violento, musculoso, que interpreta o mutante Wolverine no lucrativo filme X-Men. Mas espere um minuto. Não é também o homem que canta e dança e ganhou um Tony em 2004 vivendo o afeminado artista Peter Allen em Os Meninos de Oz? O detalhe do show de Jackman - que encerra temporada por tempo limitado e com sala cheia em 1.º de janeiro e cujo ingresso é o mais difícil de se conseguir em Nova York - é que ele abrange não inúmeros atores, mas uma equipe de dois. Oito vezes por semana ele se divide em dois para deleite das plateias femininas que o adoram por sua persona dividida. Vejamos então. Jackman é, sem dúvida, o homem do "bi": bicultural, biomórfico, binacional, biprofissional e, para fins de entretenimento, bissexual.

Estou falando de identidade sexual, mas no sentido platônico. Jackman faz questão de nos lembrar durante todo o espetáculo que é casado há muito tempo e muito feliz, e não tenho provas do contrário. Mas apesar (ou talvez por causa) do seu estado civil, ele se comporta no palco de maneira que, em tempos menos esclarecidos, poderia ser chamado de hode homossexual.

 

 

  

Em primeiro lugar, ele não faz mistério de que adora musicais. E o amor masculino pela comédia musical é daqueles sinais que se dizia para as jovens ingênuas observarem quando estão em busca de um companheiro. Jackman, contudo, deixa claro que um camarada pode mergulhar num filme luxuoso de dança, de Vincente Minnelli, como A Roda da Fortuna, e ainda ser um ás suado dos esportes. (Esta também é uma das lições da série de TV Glee, mas Jackman reivindicou primeiro o território). Criado em Sydney, Austrália, ele diz à plateia não aguentar esperar pelas noites de domingo, quando a emissora de TV local apresenta filmes musicais antigos. Mas note que Jackman só vai se sentar para ver Busby Berkeley dançando após uma partida de rugby no domingo de manhã.

Essa dicotomia molda a forma e o conteúdo de Back to Broadway, espetáculo dirigido e coreografado por Warren Carlyle, que deu a Jackman um erotismo saudável, que deveria ser mais atraente para mulheres do que para homens. O show se desenvolve como uma apresentação, em ponto e contraponto, do ying e yang de Jackman.

O número de abertura, Oh. What a Beautiful Morning (Oh, Que Bela Manhã), composição de Rodgers e Hammerstein, é do musical Oklahoma, o mais clássico dos clássicos musicais, no qual Jackman trabalhou em Londres em 1998. Ele viveu o vaqueiro Clurly, uma lembrança de quando os heróis das comédias musicais eram os mais viris dos homens e tímidos com as mulheres.

Entre uma música e outra, Jackman tira as roupas de trabalhador e veste algo mais cintilante. Ele confessa (e se rende) ao impulso de mexer os quadris e sapatear com os pés. Um pot-pourri centrado na música I Won't Dance (Não Quero Dançar) se transforma em estudo anatômico, estilo O Médico e o Monstro, de um homem seduzido pelos ritmos da Broadway, dançando como a corista de um musical, apesar de ser ele próprio.

Jackman explica que esse tipo de dança lhe proporciona um corpo delgado, flexível, diferente daquele do Wolverine nos filmes do X-Men, e exibe uma cena do filme para ilustrar a diferença. Os produtores de X-Men, diz ele, se preocuparam com esta sua transformação de mesomorfo em ectomorfo. Mas vendo o show, você percebe que, se quisesse, ele poderia recriar os músculos ocultos no mesmo momento. Ele não o faz, é claro. Em vez disso, seu corpo se torna cada vez mais sinuoso para o fim do segundo ato e ponto alto do espetáculo.

 

 

 

Essa é a sequência em que Jackman, em lamê dourado como se estivesse com uma segunda pele, reencarna o autor e intérprete pansexual australiano Peter Allen (que morreu de aids em 1992). Embora Jackman tenha flertado com sua plateia desde o início do espetáculo, como Peter Allen ele entra numa sequência de jogos preliminares polimorfos sérios. Conduzindo um diálogo erótico com a batida de um tambor, ele está tão longe de Curly quanto Oklahoma está da Austrália. A própria Austrália é foco de atenção para outras ilustrações da natureza dupla de Jackman. Embora ele faça serenata para Manhattan, com uma interpretação apaixonada de I Happen to Like New York, de Cole Porter, ele nos deixa saber que continua um tranquilo australiano que adora a vida ao ar livre. E quando interpreta Over the Rainbow, é acompanhado por quatro músicos australianos.

Cantar Over the Rainbow na Broadway equivale a lançar um desafio. É a canção que costuma ser mais associada a Judy Garland, cujos shows, no Carnegie Hall, há meio século, são lembrados como autênticos casos de amor transcendental entre uma cantora e o público. Jackman é comparado a Judy por sua relação íntima com os espectadores. Mas apesar de todo o charme e carisma, como o cantor de standards, Jackman não tem o nível de interpretação de Judy. Acho que isto ocorre em parte (deixando de lado o talento vocal) porque não há um conflito perceptível entre os diferentes Hughs, nenhum perigo de combustão interna. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO E ANNA CAPOVILLA

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