Houaiss lança dicionário da MPB com 5 mil verbetes

Com mais de sete mil verbetes, o website mantido pelo pesquisador Ricardo Cravo Albin há seis anos é um dos três maiores do mundo em música popular. É consultado cerca de 100 mil vezes por mês até por japoneses e americanos, já que tem 300 verbetes em inglês, e acaba de ganhar uma versão impressa. Parceria do Instituto Antônio Houaiss com o Instituto Cultural Cravo Albin, o Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira (Paracatu Editora, 1.176 págs., R$ 159,90) chega ao público em edição vistosa, discografias concisas e mais de 5.300 verbetes. O livro condensa as cerca de 20 mil páginas do site e ganha 500 ilustrações (cerca de 100 inéditas) de 47 caricaturistas brasileiros, entre eles os célebres J.Carlos e Nássara, a dupla Chico e Paulo Caruso, Lan e Cássio Loredano, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e responsável pela curadoria das ilustrações. "Isso nos orgulha muito. Loredano fez uma antologia da caricatura brasileira na música popular", elogia Albin. Segundo Mauro de Salles Villar, diretor do Instituto Antônio Houaiss, "o trabalho consistiu em cortar seletivamente" o material do site para caber num único volume. Foi até criado um manual de estilo para a padronização lexicográfica do texto original. O trabalho também mobilizou equipes de pesquisadores, coordenadas por Heloísa Tapajós. Enfim, o projeto é sério, embora não satisfaça os mais evoluídos na história da música brasileira por causa de uma série de deslizes. "É um acesso à informação", define Albin. "Pedimos para as pessoas mandarem dados, mas muitas não mandaram e era a única fonte de informação que tínhamos", diz. É claro que não se esperava uma obra definitiva, até porque "não pode jamais ser concluída", como diz Albin, diante do dinamismo da música popular no Brasil. Mas, ao contrário do que propaga o material de divulgação, nem todos os nomes citados ou fatos apurados são realmente "relevantes". A intenção é lançar uma reedição ampliada e revista a cada quatro anos e corrigir as falhas. Albin, que já está trabalhando na próxima para sair daqui a três anos, reconhece a necessidade de uma revisão e lamenta muitos cortes - como o de instituições como o Museu da Imagem e Som, que ele próprio ajudou a fundar e dirigiu Um dos casos evidentes de confusão de critérios é o do bloco afro-baiano Olodum, que ganha míseras oito linhas, três das quais ocupadas com a informação de que o grupo tocou com Sandy e a Orquestra Sinfônica Brasileira na Praia de Copacabana em 2005. Como se sabe, o Olodum inventou o samba-reggae, que influenciou até as escolas de samba cariocas, e se fortaleceu como entidade de cunho sóciocultural em Salvador muito antes do incensado AfroReggae no Rio. Além do mais, gravou com Paul Simon e Michael Jackson, entre outros astros internacionais. Nada disso consta do dicionário. Albin justifica dizendo que o show no Revéillon foi "um momento mágico" e que preferiu fechar o dicionário com informações mais recentes. Vai daí que Ivete Sangalo tem mais espaço do que eles, Tim Maia, Sérgio Mendes, Daniela Mercury, Moraes Moreira e os Novos Baianos, entre muitos outros evidentemente mais capacitados. Há também o registro da apresentação de João Gilberto na inauguração do Credicard Hall em 1999, mas o incidente entre o cantor, que reclamou da má qualidade do som, e parte da platéia que o vaiou, é ignorado. Não era para ser lembrado como um show qualquer. Ricardo Cravo Albin é um dos pesquisadores mais respeitados de música brasileira. Musicólogo e autor de livros de referência, ele também produziu discos históricos como o registro do show de Elizeth Cardoso com o Zimbo Trio e Jacob do Bandolim, no MIS (Museu da Imagem e do Som), em 1967. Apesar de ter acompanhado todas as etapas do dicionário, diz que não pôde nem quis "meter o bedelho no trabalho de lexicografia". Portanto ganha a técnica de elaboração e perde o conteúdo.

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